ERIKA TAMURA: A prisão de Carlos Ghosn (Parte 2)

Logo que Carlos Ghosn foi preso, eu escrevi um artigo aqui, sobre o meu ponto de vista. Entendi todo o fato ocorrido como uma grande emboscada feita pela Nissan, para capturar o seu CEO.
E cada vez que o tempo vem passando, eu tenho mais certeza disso!
Não retiro uma única palavra do que já disse e volto a repetir: foi uma crueldade o que a Nissan fez com o seu presidente.
Ele errou? Pode ser que sim, e se errou, realmente tem que pagar pelo erro.
Ontem, a prisão do Carlos Ghosn voltou a ser notícia no Japão, tudo porque ele pediu uma audiência para poder entender realmente do que ele está sendo acusado, e por fim, poder dar o seu parecer. Lembrando que não foi o seu julgamento, apenas uma audiência para um diálogo formal.
A todo momento, Carlos Ghosn deixou bem claro que é inocente em todas as acusações, que ele considera infundada. Vou compartilhar aqui, alguns dos seus argumentos e depois vou deixar a minha opinião:
“Eu dediquei duas décadas da minha vida para reviver a Nissan e construir a Aliança. Eu trabalhei em direção a essas metas dia e noite, na terra e no ar, de pé ombro a ombro com trabalhadores da Nissan em todo o mundo, para criar valor. Os frutos de nossos trabalhos foram extraordinários. Transformamos a Nissan, passando de uma posição de 2 trilhões de ienes em 1999 para um caixa de 1,8 trilhão de ienes no final de 2006, de 2,5 milhões de carros vendidos em 1999 com uma perda significativa para 5,8 milhões de carros vendidos em 2016. A base de ativos da Nissan triplicou durante o período. Vimos o renascimento de ícones como o Fairlady Z e o Nissan G-TR; A entrada industrial da Nissan em Wuhan, China, São Petersburgo, Rússia, Chennai, Índia e Resende, Brasil; o pioneirismo de um mercado de massa para carros elétricos com o Leaf, o salto dos carros autônomos; a introdução da Mitsubishi Motors na Aliança; e a Aliança se tornando o grupo automotivo número um do mundo em 20l7, produzindo mais de 10 milhões de carros anualmente. Nós criamos, diretamente e indiretamente, inúmeros empregos no Japão e restabeleceu a Nissan como um pilar da economia japonesa.
Essas conquistas – garantidas ao lado da inigualável equipe de funcionários da Nissan em todo o mundo – são a maior alegria da minha vida, junto à minha família.
Meritíssimo, sou inocente das acusações feitas contra mim. Sempre agi com integridade e nunca fui acusado de nenhum delito em minha carreira profissional de várias décadas. Fui injustamente acusado e injustamente detido com base em acusações sem mérito e sem fundamento.
Obrigado, meritíssimo, por me ouvir.”
Essa é uma parte da fala de Ghosn durante a audiência, o texto da fala na íntegra, encontra se nas páginas da IPC Digital, no qual eu usei como fonte para compartilhar neste artigo.
O que eu entendo nessa declaração é que, Carlos Ghosn está se sentindo traído pela Nissan, profundamente triste e um pouco incrédulo da crueldade por parte dos japoneses da Nissan.
Mas, por outro lado, não posso escrever somente o meu ponto de vista, sem ter ouvido o outro lado da moeda, no caso, a opinião dos japneses. Conversei com um amigo japonês que, me esclareceu que a raiva dos japoneses da Nissan, pode ser encarada como um reflexo d pensamento popular japonês. Onde eles até têm gratidão por Ghosn ter salvo a Nissan da falência, mas que, não concordam com o seu exorbitante salário. Pois quando Carlos Ghosn assumiu a Nissan, demitiu vários japoneses, que ficaram sem rumo, desempregados, onde muito deles passaram por diversas dificuldades. Mas não reclamaram e nem protestaram pois pensavam primeiramente na Nissan, afinal, se era pro bem da empresa, e eu estava fazendo mal, então melhor que eu saia mesmo, pensavam os japoneses demitidos.
Mas a partir do momento que o salário de Ghosn veio ao conhecimento do público, os japoneses foram tomados por um sentimento de revolta, ainda mais aqueles que foram demitidos por Ghosn.
Para nós que somos brasileiros é difícil entender o pensamento do japonês, mas pensem que, aqui no Japão, o salário do empregado, do diretor, do presidente não tem uma diferença discrepante, existe claro, diferença, mas não com números exorbitantes. Um exemplo fácil de entender é o presidente da Toyota, ou da Jal (Japan Air Lines), que possuem uma remuneração salarial, não muito distante de outros diretores da empresa. E ainda fazem questão de almoçarem no refeitório das empresas, juntamente com os outros funcionários. Por isso a revolta dos japoneses no caso Ghosn.
Vamos esperar o que ainda tem por vir, de um lado Ghosn, querendo provar a sua inocência e falando que honrará o seu nome, e do outro lado, uma empresa super nacionalista, defendendo com unhas e dentes a sua ideologia.

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