CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O vidente japonês

Não fora a primeira vez. Curiosidades a parte, tinha que colocar à prova as suas convicções. Mais uma leitora de baralhos? Não cairia mais nesta. Será? Tinha gasto quantia razoável nas visitas à tarde, depois do trabalho, em alguma casa de previsões, algumas aqui mesmo no Bairro da Liberdade. Perdera quantia razoável de dinheiro, entre acertos e erros. Mais erros e dúvidas do que acertos realmente. Mas não se arrependera, pois gostava do jogo: as cartas, as linhas das mãos, a borra do café e outras tantas.
Assim passavam os dias. Foi quando viu o vidente japonês, jurou que seria a última. Ainda que o resultado lhe fosse favorável, jurou cruzando os dedos e beijando-os em seguida, ficaria longo dos magos e cartomantes. Deveras, mais um desses juramentos a ser quebrado. Podia ser, podia não ser? Em caso de dúvida, o provável aconteceria. Abandonou tais questionamentos e arriscou.
Saíra cedo de casa, pois no bairro oriental poderia visitar as lojas e comprar alimentos para abastecer a dispensa. Haveria de faltar um litro de shoyu, hondashi e também missô e gomá. Inventou assim um motivo, aliás dos bons para se locomover. Depois das compras, o momento mais importante.
– Quanto cobra pela consulta – entrou de chofre.
– Trinta reais, está barato – devolveu e mostrou seus olhos miúdos atrás das lentes de grau. Usava ele também na cabeça um boné preto, igual aqueles que faziam a alegria dos jovens, imitando a moda americana, porque não falar da moda do mundo. Sem nenhuma variação.
– Não tenho trinta, deixa por vinte. – Claro, não estava disposto a gastar mais do que isso, e sabia que se pechinchasse o valor seria reduzido. – Se não quiser, vou embora – disse com convicção.
O homem olhou de um lado, de outro, pensou um pouco e suspirando arrematou:
– Não vá contar para os outros, pois o preço é trinta reais, nem mais, nem menos. Faço isso, porque é pra você, entendeu?
– Obrigada.
Sentou-se diante do vidente, que estendeu uma lupa para ler melhor as linhas das mãos. Falava algo que não se fazia entender. Mexia o pescoço e consultava um livro velho, deixado ao lado. Não havia apenas um, três para ser exato. As pessoas passavam pela rua, bem ao lado da mesa do vidente, como nada de anormal tivesse acontecendo. Não tinha sido ela a primeira. Outros frequentavam a banca do japonês. A frequência aumentava no final de ano, quando havia fila, cujos fregueses brigavam por uma vaga.
Uma linha em especial intrigava o vidente, do modo como aparecia na palma. Como o rio Nilo, vários afluentes saiam da linha principal. Muitos homens passariam na vida dela, era a única interpretação possível. Mas de todos, um deles, seria marcante. Este o motivo de muita alegria e também desespero. Estava para acontecer, talvez em breve. Aos quarenta anos, ainda acreditava que a estrela da sorte cairia em sua cabeça.
– Acho que não vai demorar muito – confirmou.
Ao tomar o caminho de volta, uma inquietação a atormentava. Seria aquele o homem que poderia transformar-lhe a vida. Podia ser mais velho do que ela, não importava com isso. Melhor se fosse rico, pensou. Mas se não fosse, pelo menos alguém que oferecesse algum conforto material? Não era isso. Sentiu-se enojada, seria ela mais uma para dar o golpe do baú? Poderia ser alguém carinhoso, quem sabe, ardoroso, desses quase incontroláveis em assuntos amorosos. Se fosse assim, poderia ter uma experiência favorável.
Depois desta consulta, retornou mais uma vez. Queria saber a respeito. O vidente nem cobrou pela segunda visita. A única previsão era de que alguém apareceria mas não poderia dizer se em alguns dias, meses ou anos. Não apenas um. Entretanto, um deles, não se sabe quem, que chegaria para marcar a vida da moça. Foi somente esta a informação, que despertou tanta ansiedade ao ponto de vir a se tornar obsessão.
Esta foi a última vez que se encontrou com o vidente, pois quando retornou, ele não se encontrava mais. Nunca mais apareceu. Morrido talvez. Sentiu-se traída mais uma vez pelo destino. Agora viveria com uma dúvida pelo resto da vida. Pelo menos até quando a previsão se concretizasse. Quando, não se sabia.
Ficou desnorteada por momentos, caminhando sem rumo, andava onde seus pés a levavam. Não importava muito se subia a Galvão Bueno ou se descia. Apenas caminhava com passos trôpegos. De repente, um clarão à sua frente. Quando acordou, estava no leito do hospital. As enfermeiras eram atenciosas. Um médico aparecia todas as manhãs e lia o prontuário. Podia ser aquele médico a pessoa que apareceria em sua vida. De fato, apareceu, numa circunstância antes improvável. Em menos de uma semana, recebeu alta e pode retomar a rotina. Tentou esquecer-se do acontecido, bem como da previsão do vidente.
Esta situação não demorou muito, provavelmente ela retornaria às consultas, pois a dúvida lhe atormentava. Não poderia adiantar os fatos, se estes pudessem acontecer da maneira anunciada. Como da previsão, aquele apareceria e marcaria a sua vida, seja de maneira favorável, seja de forma negativa. Em se tratando de amor, nem tudo é favorável, nem tudo é negativo. Para ela, sem fazer distinções, apenas queria provar do fruto da sabedoria. Apenas isso. Melhor a experiência do que a falta dela. Ainda que sofresse, que fosse por amor. Só quem viveu para falar a respeito!

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