‘Acredito que é chegada a hora de abrir espaço para outra pessoa’, diz Harumi Goya sobre reeleição

“Acredito que já dei minha contribuição de dois mandatos” (arquivo)
“Acredito que já dei minha contribuição de dois mandatos” (arquivo)

Após dois mandatos – ou quatro anos – no cargo de presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Harumi Goya conta que é hora de passar o bastão. Primeira mulher a comandar aquela que é considerada “a entidade mais representativa” da comunidade nipo-brasileira, Harumi afirma que não será candidata à reeleição – os membros do Conselho Deliberativo da entidade devem se reunir em abril de 2019 para eleger a nova Diretoria Executiva. Para ela, “é chegado o momento de escolhermos outras pessoas para condução da entidade nos próximos anos”. “Exercer a presidência do Bunkyo exige muita disponibilidade de tempo durante a semana, mas principalmente nos finais de semana. Com isso, acabamos sem tempo para os familiares, amigos, atividades de lazer, entre outros itens”, explica ela, afirmando, no entanto, que não se trata de uma reclamação. “Foi uma fase muito importante para mim”, disse Harumi, que este ano teve como principal desafio as comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil.
Neste entrevista concedida ao Jornal Nippak, Harumi Goya faz um balanço de seus dois mandatos e de suas conquistas como presidente do Bunkyo.

Jornal Nippak: Qual o balanço que a senhora faz de 2018?
Harumi Goya: Foi um ano de muito trabalho por conta da comemoração dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, envolvendo tanto a preparação e organização da cerimônia oficial, como também para atender a diferentes compromissos relacionados a esse evento. Um dos maiores desafios foi a campanha financeira para viabilizar tanto as despesas dos eventos comemorativos como as das obras do Centro Kokushikan Daigaku, que se constituirá no legado dos 110 anos da imigração japonesa. Felizmente, a liderança do presidente do Comitê Executivo, Yoshiharu Kikuchi, fez a diferença e pudemos realizar com sucesso os dois Sorteios Filantrópicos que envolveram dois carros, um da Toyota e outro da Honda, e produtos da Fast Shop. Assim, contando com a colaboração de todos, conseguimos atingir a venda de 95% dos 500 mil números dos sorteios, cumprindo a nossa meta. Contamos ainda com as generosas doações das empresas e pessoas físicas ao Livro de Ouro garantindo recursos valiosos para a comemoração e legado. Enfim, envolvidos nesses compromissos, realmente, o ano passou muito rápido, sem tempo para pensar em outras coisas.

JN: Foi uma comemoração como se esperava?
H.G.: Sim, sem dúvida! Quando iniciamos o planejamento, imaginava que esta celebração ficaria gravada no coração de todos, tanto pela emoção como pela organização e pelo conteúdo. Fico feliz que tenhamos conseguido realizar os 110 anos como um momento para demonstrar gratidão ao Brasil pela acolhida dada aos imigrantes japoneses e aos sempais (veteranos) pelo legado que nos deixaram relacionado à imagem positiva que nós, descendentes nikkeis, gozamos hoje na sociedade.

JN: Qual a avaliação que a senhora faz sobre a participação e a preparação da Prefeitura e do Estado nas comemorações? Designadamente em relação à Prefeitura, a senhora não acha que foi um desgaste desnecessário?
H.G.: Certamente gostaríamos de ter recebido mais apoio das esferas governamentais para a organização dos eventos. Mas, pelo menos, todos eles estiveram abrilhantando nossas comemorações com suas prestigiosas presenças, tanto na abertura das comemorações no Hotel Tivoli como na cerimônia oficial realizada no local do Festival do Japão.

“Gostaríamos de ter recebido mais apoio das esferas governamentais” (arquivo)
“Gostaríamos de ter recebido mais apoio das esferas governamentais” (arquivo)

JN: Aliás, falando em Cerimônia Oficial na Arena 110, além das autoridades, contamos ainda com a princesa Mako. A Comissão recebeu só elogios ou ouviu também críticas? Quais?
H.G.: Aguardamos a confirmação da vinda da princesa Mako com enorme expectativa, foi desafiante organizar o evento para recebê-la; ao mesmo tempo, uma imensa felicidade tê-la junto de nós para comemorar os 110 anos da imigração japonesa. Críticas? Sinceramente, não me lembro de ter ouvido alguma crítica, felizmente, só elogios. Sobre a recepção, um item a lamentar – as acomodações foram poucas. A Arena 110 Anos montada no Festival do Japão para a recepção oficial tinha capacidade para 4.500 pessoas, mas foi insuficiente para acomodar todos os interessados. Acredito que essa é uma desafiante questão para as próximas comemorações.

JN: A visita da princesa Mako deu ânimo às comemorações?
H.G.: Muito mais do que ânimo aos organizadores, deu brilho às nossas celebrações. Desde 1958, a cada dez anos, mais ou menos na comemoração do aniversário da imigração japonesa, tornou-se tradição a presença de representantes da Família Imperial japonesa em nosso país. Esse é um costume que reflete a alta consideração da Família Imperial em relação aos imigrantes japoneses do Brasil. A presença desses representantes tem dado júbilo especial e contribuído para chamar a atenção de todos para a celebração.

JN: Como avalia a participação dos jovens?
H.G.: Foi uma ótima oportunidade para destacar e estimular a participação dos jovens. Na cerimônia oficial, a organização da entrada e encaminhamento do público na Arena 110 Anos foi feita pelos jovens de várias entidades nipo-brasileiras. Infelizmente, muitos não puderam acompanhar toda a programação da cerimônia oficial, mas contribuíram para o sucesso da comemoração. Queria também chamar a atenção para outro item – com a presença de uma jovem representante da Família Imperial, os jovens tiveram a oportunidade de participar de uma reunião com a princesa Mako, apoiada pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo. Acredito que esses fatos são interessantes na medida em que, de alguma forma, despertam a atenção desses jovens para a importância de se participar das celebrações futuras.

JN: Para a Comissão, o principal legado dos 110 Anos será o Kokushikan. Como se chegou a essa escolha e por quê?
H.G.: O projeto de sustentabilidade do Centro Esportivo Kokushikan Daigaku já vinha sendo desenvolvido pela diretoria e atuais membros da Comissão de Administração do Kokushikan. A Comissão para Comemoração dos 110 Anos, ao iniciar os preparativos, além da celebração, também buscou um legado que pudesse beneficiar as próximas gerações e marcasse a passagem dos 110 anos da imigração japonesa. Nesse sentido, o projeto do Kokushikan se encaixou perfeitamente nestes objetivos de longo prazo.
Acho que, independente de ser um local administrado pelo Bunkyo, com essas obras o papel do Kokushikan extrapola essa condição e transforma o local numa importante referência tanto para a comunidade nikkei como para a sociedade brasileira.

JN: Em 2019, como o próprio cônsul geral do Japão em São Paulo, Yasushi Noguchi tem dito em seus discursos que, tanto o Japão como o Brasil passarão por mudanças. No Japão, o atual imperador, Akihito, abdicará ao trono e em seu lugar assumirá o príncipe herdeiro, Naruhito. No Brasil, assume o presidente eleito Jair Bolsonaro. E no Bunkyo, também teremos mudanças? Para ser mais claro, a senhora é candidata à reeleição?
H.G.: Concordo que 2019 será um ano de numerosas mudanças, tanto no Japão como no Brasil. Espero que no Bunkyo também se apresentem muitas mudanças, incluindo a presidência, visto que não pretendo concorrer à reeleição. Acredito que já dei minha contribuição de dois mandatos (quatro anos) dedicados inteiramente ao Bunkyo e é chegado o momento de escolhermos outras pessoas para condução da entidade nos próximos anos.

JN: Por que não concorrer a um novo mandato?
H.G.: Exercer a presidência do Bunkyo exige muita disponibilidade de tempo durante a semana, mas principalmente nos finais de semana. Com isso, acabamos sem tempo para os familiares, amigos, atividades de lazer, entre outros itens. Não estou reclamando, foi uma fase muito importante, mas acredito que é chegada a hora de abrir espaço para outra pessoa.

“A Presidência do Bunkyo foi um grande aprendizado para tudo” (arquivo)
“A Presidência do Bunkyo foi um grande aprendizado para tudo” (arquivo)

JN: Como a senhora pegou o Bunkyo e como ele se encontra hoje? Quais foram as principais conquistas?
H.G.: Uma das preocupações foi melhorar e renovar a energia da entidade. A providência inicial foi mudar algumas instalações; como ocorreu com a substituição das cortinas e a instalação do climatizador de ar na secretaria. Se por um lado as mudanças proporcionaram melhores condições ao ambiente de trabalho, também tiveram como finalidade deixar tanto a secretaria quanto outros locais da entidade mais acolhedores ao público em geral. Recentemente, inauguramos, numa das salas do subsolo, as instalações dos arquivos deslizantes que foram doados pela Fundação Mário Covas. Graças a isso teremos condições para organizar e preservar o acervo de documentos da entidade, o de obras de importantes artistas plásticos de nossa comunidade, entre outros. Em termos de instalações físicas da entidade, o Espaço Cultural Bunkyo que se encontra em fase de acabamento, tem se apresentado como uma opção para acolher eventos culturais. Durante este ano, nesse Espaço, realizamos a Grande Exposição de Arte Bunkyo, Exposição de Orquídeas e a parte expositiva do Bunka Matsuri. Interessante destacar também que ali está localizado o Espaço Gastronômico, que já está totalmente equipado e poderá, nos próximos meses, sediar aulas e eventos gastronômicos. Outra importante conquista refere-se ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, mantido pelo Bunkyo. Foram realizadas obras de reforma das exposições do 7º e 8º andares e instalações de novos equipamentos graças ao patrocínio da Toyota do Brasil e várias empresas japonesas. Esta foi a segunda atualização do Museu – inaugurado em 1978, ele teve a primeira reforma das instalações em 1998 (e agora, em 2018).

JN: O que a senhora ainda gostaria de fazer em relação ao Bunkyo?
H.G.: Ao assumir, um dos meus objetivos era reforçar a participação da força feminina que tem sua importância reconhecida em todas as entidades. Não foi possível dar a abrangência que pretendia e, se possível, gostaria de continuar tentando viabilizar essa possibilidade. Acredito que essa alternativa continua sendo importante para ampliar a atuação de nossa entidade e diria que isto faz parte de uma preocupação mais ampla visando resgatar o respeito e a confiança em relação ao Bunkyo.

JN: Hoje, qual seria o “atrativo” em presidir o Bunkyo?
H.G.: Pessoalmente, a presidência do Bunkyo foi um grande aprendizado em tudo, seja no relacionamento social, relacionamento humano, oportunidade para estudar (e aprender) sobre a história da imigração japonesa e do Japão, entre outros itens. Ao mesmo tempo, o Bunkyo, que é considerado uma entidade representativa da comunidade nikkei, proporciona ao seu presidente a oportunidade de contato com os mais diferentes representantes de entidades, empresas, altas autoridades do Japão e do Brasil, entre outros. Também, é uma oportunidade para conhecer pessoalmente personalidades famosas, como por exemplo, cantores e artistas do Japão, que só vemos fotos nas revistas e tevê.
Acredito que uma das grandes lições para minha vida foi a exigência de exercer a liderança continuamente. Por exemplo, na maioria das reuniões, os participantes sempre estão à espera de um posicionamento da presidente da entidade, ou ainda, nos eventos, sempre sou convidada para a saudação oficial da entidade. Assim, muito mais do que “divertir-se” nessas ocasiões, a representatividade traz responsabilidades que refletem diretamente na imagem da entidade.

JN: Como está a questão das dívidas do Bunkyo? Como isto está sendo trabalhado?
H.G.: Tendo em vista a persistente crise econômica em nosso país, o Bunkyo também vem sofrendo com a redução de recursos advindos da locação de suas instalações, como dos eventos promovidos pelas comissões. As dívidas estão sendo equacionadas graças à participação efetiva de membros da diretoria executiva e da diretoria do Conselho Deliberativo. Acredito que até o final do ano estarão sanadas, deixando de representar a principal preocupação de todos. Ao mesmo tempo, estamos planejando cuidadosamente equacionar esse problema, estabelecendo opções para garantir a autossustentabilidade da entidade por meio das contribuições de associados, novos recursos financeiros e redução de despesas.

JN: Qual a mensagem que a senhora deixa para nossos leitores?
H.G.: Iniciamos o ano com expectativas de novo governo no país e esperamos que esse otimismo reflita em passos positivos para nossa vida e para esta entidade.
Gostaria que este momento fosse uma oportunidade para trazer a entidade mais próxima de todos. Ou seja, que as pessoas sentissem que o Bunkyo é uma entidade de todos, não somente do grupo da diretoria. É da responsabilidade de todos oferecer condições para melhorar a entidade, buscando fortalecer o legado conquistado e passado pelos “sempais” às gerações de nikkeis.
Desejo um feliz Ano Novo a todos e que 2019 seja marcado por maravilhosas realizações.

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