Relembrando a emoção da visita da princesa Mako

Princesa Mako na Marília
Princesa Mako na Marília

A Sua Alteza Imperial, princesa Mako de Akishino, visitou o Brasil para homenagear os 110 anos do Centenário da Imigração Japonesa no país e passou por diversas localidades onde nenhum integrante da família imperial havia visitado até então, oferecendo orações e palavras de conforto. O presente jornalista fará aqui uma retrospectiva dos principais momentos da visita da Sua Alteza Mako nas diversas localidades.

O ponto alto foi ela ter sido a primeira pessoa da família imperial japonesa a oferecer flores aos pioneiros que morreram de malária enquanto lutavam para desbravar a região noroeste de São Paulo.

O caso ocorreu em 1915, na Colônia Hirano, quando, em pouco menos de meio ano depois de se assentarem, mais de 80 imigrantes japoneses tombaram por causa da malária. O assentamento ficava no meio da mata selvagem e o palco da tragédia foi o loteamento 1, nas margens do rio, considerado ideal pelos japoneses para o plantio de arroz. Sem alarde, os moradores ergueram um monumento em 1946 para orar pelos falecidos.

O monge Chijo Okayama (83), do templo Nishihonganji de Lins, deu um relato assombroso para o repórter: “O terreno foi vendido por um pecuarista brasileiro e era um campo que servia para alimentar o gado. O memorial foi erguido no lugar onde ficava a antiga casa do proprietário. Esse pecuarista disse que em inúmeras ocasiões escutou vozes de mulheres e crianças choramingando, não importava se era de dia ou de noite: ‘Por que vim para cá?’ Juntamos os ossos daqueles que haviam sido enterrados em diferentes pontos deste bloco e reunimos aqui onde erguemos o monumento. Os choros e lamentos cessaram completamente desde então”.

Na manhã do dia 23 de julho, diante do “Memorial em Homenagem aos Imigrantes Pioneiros Falecidos”, que fica no meio de uma vasta plantação de cana-de-açúcar, a princesa Mako ficou de pé e abaixou profundamente sua cabeça, orando pelas almas dos falecidos.

Ao ver a princesa oferecendo flores aos seus antepassados, Shizuyo Moribe (descendente de 3ェ geração, 68 anos, moradora de Cafelândia) não conseguiu conter a emoção e caiu em lágrimas. A Sua Alteza envolveu a comovida senhora em seus braços e assim ficou até ela se acalmar, dando-lhe palavras de conforto: “Está tudo bem, está tudo bem”.

Em Araçatuba, a princesa foi recebida com o “Almoço de Boas-vindas” organizado pela Federação das Associações Culturais Nipo-Brasileiras da Noroeste.

Depois da refeição, disse: “o almoço estava tão delicioso que gostaria de dar meus cumprimentos”. E iniciou uma visita não programada ao Departamento de Senhoras (Fujinbu) cumprimentando as “embaixadoras civis de avental” que costumam permanecer nos bastidores. As senhoras ficaram emocionadas com o tratamento especial: “Foi inesperado. Não tenho palavras para descrever tanta felicidade”.

Emocionei-me ao saber deste episódio por meio de nosso repórter, mas ao mesmo tempo lamentei pela princesa não ter ido ao espaço gastronômico onde estão as senhoras e os jovens, as protagonistas do Festival do Japão organizado pelo Kenren (Federação das Associaçãoes de Províncias do Japão no Brasil), em São Paulo.

Na manhã do dia 27 de julho, a princesa Mako visitou a Associação Cultural de Tomé-Açu (ACTA). Lá, ela foi recebida com o “Projeto Coração”, que consistia em reunir os alunos da Escola Nikkei em seu campo para formarem um coração e agitarem as bandeiras do Brasil e do Japão exatamente na hora em que o avião estivesse passando por cima.

Os alunos da mesma escola também ensaiaram as batidas do wadaiko usando pneus velhos empilhados para poderem se apresentar para a princesa pegando emprestados os tambores verdadeiros de Belém. Essas crianças juntaram as vozes para transmitir a gratidão que sentiam: “Tôku made gohômon kudasari, arigatô gozaimashita! (Muito obrigado por vir nos visitar de tão longe!)”.

O presidente Alberto Ke-Iti Oppata, da Cooperativa Agrícola de Tomé-Açu, que estava ao lado da Sua Alteza nessa hora, disse que “um fio de lágrima escorreu no rosto da princesa”.

Assim que chegou a Tomé-Açu, primeiramente ela passou pelo Memorial em Homenagem aos Imigrantes Pioneiros Falecidos dentro do cemitério. Usando luvas e um vestido branco, a princesa ofereceu flores no Monumento e depois fez uma profunda reverência.

Neste cemitério está sepultado o presidente da Confederação dos Parlamentares Nipo-Brasileiros, Saburo Chiba, que não mediu esforços em ajudar os assentamentos japoneses; o presidente da Kanebo, Sanji Muto, que liderou a Nantaku KK; o presidente da Nantaku KK, Hachiro Fukuhara, que fez um esforço heroico na linha de frente do desbravamento da região; Makinosuke Usui, que trouxe a pimenta-do-reino para a região e Tadao Sugino, o primeiro chefe do Departamento de Colonização da Universidade Agrícola de Tóquio.

Há 39 anos, Saburo Chiba morreu no México, quando estava a caminho da Cerimônia de Comemoração dos 50 anos da Imigração Japonesa na região amazônica. Ao pensar nos grandes benfeitores da imigração como o Saburo Chiba, a ausência de um representante do Governo Japonês nesta comemoração dos 110 anos por causa da prorrogação dos serviços da Dieta Japonesa me causa uma grande tristeza.

Ano que vem será o ano dos 90 anos da imigração na Amazônia. Gostaria muito que algum representante do Governo Japonês à altura da data possa vir prestigiar o evento.

Durante a audiência com Jorge Ito, ex-presidente da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (CAMTA), a princesa Mako contou: “Meus pais desejavam muito visitar a colônia de Tomé-Açu e hoje eu estou aqui”.

Desejo que a princesa possa transmitir ao casal imperial e à sua família a sincera recepção que as sociedades nikkeis de todos os lugares que visitou no Brasil prepararam oferecendo tudo que podiam.

(Masayuki Fukasawa, Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

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