Pela submissão espontânea

Em que momento alguém por livre vontade é capaz de dobrar-se à submissão de alguém? Isso pode se referir também de uma população em relação a um tirano? Isso não se refere apenas ao reino dos humanos, também dos animais. A liberdade é algo imprescindível para a existência da espécie. Portanto, abdicar-se da própria liberdade, na cultura ocidental, ou naquilo que se entende por isso, é um absurdo, levando-se em consideração os valores da dignidade a serem exercidos durante a existência. Pelo menos, em condições saudáveis, assim poderia se pensar.

Assim tivemos por paradigma os bons princípios: a preservação da liberdade. Era natural que os negros escravizados fugissem de seus cativeiros e buscassem a liberdade nas matas. Os que conseguiam evadir-se pelas matas, provavelmente buscavam refúgio em grupos nos quais identificavam-se. Podia ser num quilombo, dirigido por negros, todos fugidos das fazendas. Não se tratava destes em grupos organizados formados por negros livres, pois entre eles também a escravatura era uma condição histórica. Existia, portanto, o cativeiro. A liberdade ao fugir da fazenda do branco não significava a sobrevivência num mundo hostil ao negro fugido. Entretanto, a busca da liberdade, ainda que em condições adversas, era uma vontade de quem encontrava-se alheio a ela.

Casos a parte, a liberdade seria uma condição desejada a ser alcançada pelas civilizações.

O que ponho em discussão é de que muitos dos modelos antes considerados constantes, agora podem modificar-se. Tempos de instabilidade, conhecidos também de pós-modernidade. Existem outras formas de se pensar e agir, não sendo apenas aquilo que o ocidente teve como verdadeiros na construção da história. A Revolução Francesa foi um movimento ocidental da Ilustração, e que tornou modelo na busca de valores como fraternidade, igualdade e liberdade. A história foi vista como um movimento de emancipação do homem, deixando para trás tudo o que fosse atrasado.

Teria sido esta uma crença da superação do homem, de uma condição inferior, para algo melhor, sendo a liberdade a bandeira a ser desfraldada em nome do progresso, do desenvolvimento, do desenvolvimento da ciência contra todos os preconceitos e ignorância. Isso, no entanto, teria acontecido da maneira prevista? Houve de fato avanços da tecnologia, facilitando a vida do homem. Este avanço todo, criou também nos tempos atuais um movimento inverso.

Sem nenhum pudor surgiram movimentos conservadores no campo político, que buscam justamente a inibição da liberdade. Se a liberdade valoriza o senso crítico – inclusive a autocrítica – o conservadorismo prega a valorização das atitudes morais, consagradas pelos costumes. A simples aceitação do que fosse tradicional, diante da ameaça do inovador, os conservadores preferem a segurança daquilo consagrado pela tradição. Esta atitude não cria a mudança, acomoda-se na zona de conforto.

E neste movimento do avanço e do retrocesso, a história acontece em condições apropriadas. Pode ser que a liberdade não seja um desejo. Conforme Etienne de la Boetie, no Discurso sobre a servidão voluntária, escrito em pleno século XVII nos parece tão atual. Para ele, todo governante tirânico tem um povo indolente que justifica a própria tirania.  Diz ele: É natural no homem o ser livre e querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá”. Enfim, “a primeira razão da servidão voluntária é o hábito”.

Sendo a servidão algo que contraria a liberdade, a sua preferência é abdicar-se da própria liberdade. Pode-se eleger um governante autoritário, que usa das prerrogativas autoritárias e defender posturas igualmente autoritárias. No caso, isso se aplica à segurança. Quando a segurança fica ameaçada, surgem movimentos que visando aumentar o efetivo de segurança pode incentivar o uso da violência na contraparte.

Não somente nisso, a liberdade nos meios de comunicação. Existe uma hegemonia de um determinado veículo, que criou um modelo a ser seguido, através de seu noticiário. Noticia o que é de interesse, negando a informação daquilo que não interessa. Afinal, que país você deseja para o futuro? – O que desejo realmente é um país livre no presente, com pessoas livres. Mais do que nunca a liberdade ao defender o senso crítico em relação às próprias ideias e atitudes.

Por fim, a liberdade maior é a de não dispor de um celular que desperte milhões de desejos e frustrações, milhares de amigos e não ter amigo algum, muitas informações e nenhuma sabedoria. Queria usar camisa vermelha e andar pela Avenida Paulista, sem despertar ódio dos que usam amarelo. Mas o medo cria a violência e o cerceamento da liberdade.

 

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