OPINIÃO: Candidatos nikkeis nas eleições conturbadas

Kiyoshi Harada*

Nenhuma eleição a cargos majoritários foi tão conturbada como a que está em curso. Bem antes da abertura do calendário eleitoral a grande mídia, que se despiu do seu papel de informar, passou a ser protagonista principal desse processo eleitoral com o “lançamento” à candidatura presidencial de um preso e condenado por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, apresentando-o à sociedade como candidato imbatível segundo “pesquisas” de opiniões. A mídia passou a produzir fatos para noticiá-los em seguida, desviando-se da conduta ética. Escolhe os candidatos para os “debates” que nada acrescentam e formula perguntas contra este ou aquele e a favor deste ou daquele, tudo segundo as regras que ela improvisa. Os excluídos dos debates ficam marginalizados da opinião pública. É a democracia dos detentores do poder de comunicação de massa.
Afastado de sua candidatura, depois de ruidosas, sucessivas e caríssimas batalhas judiciais que envolveram até a atuação da Comissão de Direitos Humanos da ONU, o ex-presidente cedeu a candidatura para Haddad, seu fiel vassalo, mas, não o comando da campanha do PT, que ele continua operando do interior da cela privilegiada, onde nem holofotes faltam, e o estrago continua sob as vistas indiferentes das autoridades constituídas. O Haddad não passa de um pobre teleguiado que declarou em alto e bom som: “se eleito, o Lula será o principal conselheiro do meu governo”. Era o que faltava!
Outro fator conturbador do processo eleitoral foi a facada quase mortal que o candidato Bolsonaro recebeu em circunstâncias ainda não apuradas, apesar da segunda investigação aberta pela polícia, e que o tirou de circulação até hoje. E para aumentar ainda mais a confusão, e para o espanto geral, o TSE aceitou o registro da candidatura ao Senado formulado pela ex-presidente Dilma pelo Estado de Minas. Por maioria de votos, seguiu-se o resultado do julgamento político no processo de impeachment deixando de lado a letra da Constituição.
Estamos entre os dois extremos opostos: um da esquerda, o do PT que levou o País à ruína econômica e moral nos 13 anos de governo de cleptocratas, e de outro lado, o da direita, que embora de passado limpo está despertando ódio entre parcela ponderável da população, principalmente, entre as mulheres por conta de algumas declarações infelizes que fez, e outras por declarações de seu vice, General Mourão, homem honrado, mas sem nenhuma experiência política que está mais atrapalhando do que ajudando. Tudo isso torna o processo eleitoral bastante confuso e preocupante. Onde está o centro? Ninguém sabe, nem se descobre!
Mas, falemos das eleições proporcionais que em minha opinião são as mais importantes, para renovar os nossos representantes nas Casas Legislativas, ecos de ressonância da vontade popular. Cabe, sobretudo, ao Parlamento Nacional renovado, livre de parlamentares acuados por denúncias e investigações, apoiar projetos de reformas estruturais para tirar o País do buraco em que se acha metido com um inusitado déficit primário de 159 bilhões.
Nesse sentido, a tônica do discurso para a pretendida renovação é e será a bandeira da ética que está ligada à cidadania que, por sua vez, tem raízes na boa educação em seu sentido mais amplo. Essa bandeira surgiu como reação contra o império da corrupção nos meios públicos. Ela já produziu dois bons resultados: a Lei da Ficha Limpa e a Lei Anticorrupção. Nada de candidato corrupto; nada de candidato que não seja ficha limpa; nada de candidato sobre o qual paire qualquer sombra duvidosa sobre a sua conduta ético-moral. É o lema eleito pelo cidadão de bem, consciente da grave fase que estamos atravessando. Lamentavelmente, milhões de pessoas humildes têm demonstrado uma preferência doentia pelos corruptos e corruptores, responsáveis pelos programas de inclusão social que lhes dão de comer, impotentes e incapazes de descobrir que isso os leva à estagnação, sem nenhuma perspectiva de ascensão na vida econômico-social, limitando-se a engrossar o curral eleitoral dos eternos manipuladores de opinião pública, sempre com a ajuda da grande mídia, também, beneficiária desse regime que está, aos poucos, apodrecendo por conta do câncer plantado e cultivado ao longo de 13 anos de PT. Cabe aos novos representantes reverter esse quadro atroz fazendo, dentre outras coisas, a reforma do sistema educacional invertido e pervertido que, em última análise, é o único responsável pelo curral eleitoral. Cabe ao Congresso Nacional renovado com valores positivos, para sintetizar, reduzir o poder deste Estado paquidérmico, perdulário e disfuncional que está por trás da corrupção imposta à Nação. Sem esse trabalho de limitação do poder estatal, nem multiplicando por dez a operação lava jato será suficiente para conter a escalada dos crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro. A título ilustrativo indago: de que adianta a ação policial se o Judiciário leva 10, 15 ou 20 anos para concluir um julgamento?
Ficar apenas resmungando e reclamando contra a classe política é a pior forma de contribuir para a reconstrução de nossa pátria. A classe política deve ser avaliada com justiça sob o prisma ético-moral, separando o joio do trigo, pois ela é indispensável para a construção e manutenção do real Estado Democrático de Direito. De fato, os políticos estão em uma das bases primordiais como representantes que são da sociedade perante o Estado. Se olharmos para o passado veremos que foi ela quem nos livrou de todas as crises politico-institucionais por que passamos. Se deixarmos de lado o meio político para superarmos a atual situação anormal que vivenciamos, e partirmos para o uso de outro meio, invocado por pessoas tomadas de paixão, será bem pior! Temos que confiar nos políticos, buscando eleger aqueles portadores de uma formação ético-moral capazes de sacrificar o individualismo pelo coletivismo. Ser ético, outra coisa não é senão agir pró-coletivo, ao contrário do aético que age por si e para si. É o individualismo que descamba, invariavelmente, para a imoralidade e a corrupção generalizada que corrói a base da sociedade e desperta a revolta dos justos.
Encontramos nos candidatos nikkeis, os herdeiros naturais de cidadãos éticos. Digo isso, não apenas baseado na experiência profissional e de vida, mas também, fundado nas pesquisas científicas feitas pelo professor Raul Marino Junior, titular da Faculdade de Medicina da USP, grande estudioso da cultura e da civilização japonesa. No seu livro “O cérebro japonês: a importância da língua japonesa” [1] ele diz, em resumo, o seguinte: a) os japoneses por terem estudado o kanji, que é uma figura ou uma forma [2], possuem o lado direito do cérebro mais desenvolvido; b) o desenho, as artes, o zen, a música, o poema, a religião são reconhecidos pelo lado direito; c) o desenvolvimento maior do cérebro direito produzido pelo kanji e pelas artes influi na produção de poemas [3]; d) a moral e a ética são reconhecidas pelo lado direito do cérebro, assim como a espiritualidade que dispensa palavras para pensar! d) os japoneses usam mais o cérebro direito resultando em um comportamento ético onde sobressaem os valores religiosos e espirituais; e) os ocidentais não utilizam o cérebro direito tanto quanto os japoneses, preferindo usar o cérebro esquerdo, habilitado a comunicar-se pelo alfabeto romano e não por ideogramas [4]; f) o japonês quando perde o cérebro direito por meningite, derrame, AVC etc. deixa de reconhecer o kanji, mas pode se comunicar pelo alfabeto romano (katakaná e hiraganá).
Verifica-se que a ética não brota apenas da cultura de cada povo, porque ela tem origem orgânica. Assim, neste País multicultural e multirracial, falar apenas em mudar a cultura do egoísmo pela cultura do coletivismo, por si só, não vai apontar o caminho da construção de uma sociedade ética, de um Estado ético. É preciso, também, estimular o uso do cérebro direito para que ele cresça. Mas, de uma coisa tenho certeza: essa quantidade enorme de nikkeis que se apresentam nas eleições próximas se eleitos trarão benefícios políticos para o sofrido Brasil na mesma proporção que os japoneses trouxeram no campo da agricultura. E aqui cabe um esclarecimento importante: a exaltação dos candidatos nikkeis, éticos por natureza, não exclui de forma alguma inúmeros valorosos políticos não nikkeis, éticos, probos e inteligentes que, à dura pena, vêm mantendo as chamas desta Nação à beira da total escuridão. Caberá ao Parlamento renovado, independente, livre de investigações, de ameaças e de acusações implementar as reformas estruturais de que necessitamos, a começar pela redução do tamanho deste Estado perdulário que não mais cabe dentro do PIB.
Votemos com consciência. Não se deixe enganar pela grande mídia, tradicionalmente, a serviço dos detentores do poder. Vamos reposicionar o País para o período anterior ao mensalão, ao petrolão e outros “aos” alusivos a tantos assaltos cometidos no BNDES, na CEF e no BB, todos eles crias do PT. O cidadão tem o poder e o dever de reduzir o tamanho do Estado por meio de seu voto consciente e consequentemente trazer a todos a segurança jurídica que hoje não temos. Não desperdice essa oportunidade. Troquemos o ódio, a intolerância e a violência pela esperança que conduz à vitória final do bem contra o mal, e teremos uma pátria livre. E o que é importante: exercitada a cidadania pelo voto consciente, quem quer que seja o eleito para o cargo de Presidente da República [4] todos hão de respeitá-lo, enquanto no exercício do poder e nos limites legais e constitucionais. É o que determina a conduta ética do cidadão.
[1] São Paulo: Editora Palas, 1999.
[2] Kanji é uma escrita ideográfica que derivou da escrita pictográfica que se expressa por meio de desenhos.
[3] As artes marciais e os poemas faziam parte do dia a dia dos samurais. Os poemas eram escritos com facilidade antes de sua partida para o além.
[4] Escrita alfabética contrapõe-se à escrita ideográfica que se expressa por meio de ideogramas.
[5] Presidência da República é uma instituição pública que deve ser vista com respeito e acatamento.

*Kiyoshi Harada é jurista
**Os textos pessoais, assinados, não expressam, necessariamente, a opinião do jornal

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