Kim promete cortar privilégios e manter foco em Brasília: “Não vou fazer campanha durante 4 anos”

Kim Katagiri em manifestação em março do ano passado
Kim Katagiri em manifestação em março do ano passado

Quarta-feira, dia 24. O recém-eleito deputado federal Kim Kataguiri (DEM) – único deputado federal nikkei a tomar posse em 2019 – recebe a reportagem do Jornal Nippak no escritório do Movimento Brasil Livre (MBL) – do qual, aliás, ele é cofundador – na zona Sul de São Paulo. Na sala, apenas mesas, cadeiras e um sofá, além de um notebook. Seu futuro chefe de Gabinete, Rafael Minatogawa – de ascendência okinawana – está presente, mas não participa da conversa.
De cara, falo que a comunidade nikkei deve ter se sentido um pouco mais aliviada ao ver uma postagem na página do Facebook do Indaiatuba Matsuri Japan Matsuri – evento realizado de 11 a 14 de outubro, pela Acenbi (Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Indaiatuba), no Pavilhão da Viber – na qual ele aparece ao lado da mãe, Cláudia, da irmã, Gabriele, e do amigo Christian Oliveira.
Kim sorri. Conta que nasceu na cidade de Salto, mas foi criado em Indaiatuba – onde sua família reside até hoje – antes de ir para Limeira estudar. Em Indaiatuba, lembra que chegou a jogar beisebol até os oito anos de idade. “Parei porque quebrei o nariz”, diverte-se, acrescentando que também participava de outas atividades, como os undokais (gincanas poliesportivas).
Filho do metalúrgico Paulo Atuhiro Kataguiri – que faleceu em 21 de setembro do ano passado – Kim é o caçula de três irmãs – Lilian, Gabriele e Juliana. Sobre os avós, que vieram da província de Nagano, conta que teve contato mais próximo com a “batchan” (avó), dona Eiko. Com ela, aprendeu a falar algumas “palavras soltas” em japonês. “Até brincava com o meu pai [dizendo] que ele não tinha me ensinado a falar japonês”, diz Kim, lembrando que foi durante o curso técnico em Limeira que começou a se interessar por política.

“Dentro do atual cenário, o Bolsonaro era a melhor opção” (Aldo Shiguti)
“Dentro do atual cenário, o Bolsonaro era a melhor opção” (Aldo Shiguti)

Princesa Mako – Considerado pela revista americana Time um dos jovens mais influentes do mundo em 2015, Kim mudou-se para a Capital com 18 anos de idade. Na época, a irmã Lilian já era voluntária do Kenjinkai de Nara. “Ela recebeu uma bolsa pela província e foi estudar no Japão. E desde que me convidou ajudo o Kenjinkai no Festival do Japão”, afirma. Indagado pela reportagem se ficou sabendo da visita da princesa Mako por ocasião das comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil, ele responde que sim, que não só ficou sabendo como também teve oportunidade de vê-la. “Foi muito legal”, afirma.
Quarto deputado federal mais votado em São Paulo com 465.310 votos, Kim, afinal, não é um “completo estranho” dentro da comunidade nikkei como muitos imaginam. É verdade que não tem muita intimidade com os Bunkyos da vida. “Não conheço profundamente, apenas de cumprimentar alguns dirigentes”, afirma. No entanto, no que depender dele, a comunidade poderá ficar (um pouco mais) tranquila sobre sua presença em eventos – em especial aqueles com representantes do governo japonês.

Atuação incisiva – Kim destaca que “não me elegi com pauta específica, mas estou disponível, sim”. Para ele, mais que participar de eventos e festas, os seus eleitores podem esperar do Kim deputado federal uma “atuação bem incisiva, como sempre tive no movimento e focado em temas realmente importantes, não em mesquinharias, principalmente na reforma previdenciária e na questão da segurança pública, uma reforma completa do sistema penal, desde o pré-processual até o cumprimento de pena dentro da cadeia”. “Foram as minhas principais bandeiras e acredito que será o principal debate do presidente eleito”, diz Kim, contando que tem contato com os vereadores nikkeis Aurélio Nomura (PSDB) e George Hato (MDB).
“Não vou mentir. Meu foco, diferentemente de outros deputados não é ficar voltando toda hora para a base eleitoral. Meu foco é Brasília, legislar, porque acho que essa é a função do deputado e não ficar fazendo campanha durante quatro anos. Mas sempre que tiver disponível pretendo comparecer [em eventos da comunidade, quando convidado] sim”, afirma Kim, que se considera uma pessoa “tímida”.
Tímido? – Sobre isso, aliás, disse que perdeu a timidez em falar em púbico com treino, muito treino. “Você começa gravando um video sozinho, aí vai grava outro vídeo com um amigo assistindo e depois vai para uma entrevista, vai para manifestação, debate. E vai evoluindo, é treino. E é uma coisa que japonês sabe bem: a prática constante leva a excelência”, ensina Kim, assegurando que também curte mangá e anime e “lá para frente, quando estiver mais tranquilo”, planeja conhecer o Japão. E arrisca até uma data. “Se der certo vou em 2020 e aproveito para assistr a Olimpíada de Tóquio”, diz o futuro parlamentar, revelando que já foi procurado por representantes do Consulado Geral do Japão em São Paulo para uma aproximação com a comunidade.
Para ele, que havia declarado apoio a Jair Bolsonaro, o presidente eleito não era a escolha ideal. “Mas dentro do cenário era a melhor opção”. “Ao longo do tempo pontuei várias críticas ao Bolsonaro. Minha principal pauta, que ele lutou contra ainda no governo Temer, foi a reforma previdenciária. Ele foi contra por conta da questão dos militares, que sempre foi a bandeira dele. Também foi a favor do aumento do próprio salário, contra a privatização da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras… Então, acho que tem uma distância significativa daquilo que eu acredito, mas a política é o que a gente pode, não é o que a gente quer e dentro dos cenários possíveis – era ele e o Haddad, que tem um programa de governo assustador – o Bolsonaro era a melhor opção”, diz Kim, destacando que a população não só passou um recado nessas eleições como também se fez ouvir.
“A percepeção daqueles que eles sobreviveram não é a de que eles venceram as eleições. Tanto que não estão em clima de festa como geralmente ficam logo após as eleições. Estão mais preocupados sobre como vão se reeleger em 2022 com esa nova lógica e como vão se articular nesse novo Congresso”, diz, acrescentando que o fator principal dessas eleições não foi apenas o “efeito Bolsonaro”.

Renovação – “Teve também muita vontade de renovação, de querer tirar os nomes tradicionais e, ao mesmo tempo, de dar um recado para quem optou pela campanha tradicional, com vereadores e com prefeitos locais, focando principalmente em apoio político e não tanto com o canal de comunicação com a população”, constata Kim, que terá que conviver com deputados da estirpe de um Alexandre Frota (PSL-SP) e do palhaço Tiririca (PR-SP) – este último reeleito para seu terceiro mandato.

Baixo clero – “Ulysses Guimarães já costumava dizer: ‘Se você acha esse Congresso ruim, então espere o próximo’. Quer dizer, todo Congresso sempre teve suas figuras de baixo clero, que em regra nunca tiveram influência política, que nunca pautaram debate político e acredito que esse é o caso do Alexandre Frota e do Tiririca. Não acredito que eles vão pautar nenhuma votação, até porque eles não têm influência politica sobre outros parlamentares, que é o que de fato faz com que ele tenha força política lá dentro. Assim como acho que eles também não terão força política para ocupar comissões relevantes – a maior parte dos projetos de lei passam só por comissões, não passam pelo Plenário”, conta Kim, que prevê uma “atuação bastante apagada” tanto do ex-ator pornô como do palhaço Tiririca.
Para ele – que já disse uma vez que seu partido é o MBL – a lógica do Congresso não é partidária. “Hoje a organização de bancada se dá suprapartidariamente. Então você tem a bancada de Ciências e Tecnologias, da Bala, da Bola, da Bíblia, do Boi – entre as mais conhecidas –, que votam como um conjunto independentemente do partido político porque hoje os partidos perderam o poder sobre os parlamentares. Antes de 2017, a jurisprudência do TSE dizia que o mandato era da coligação e do partido e não do eleito, hoje é do eleito. Então, se eu discordar do partido eu posso ser expulso do partido mas não perco o mandato, antes perderia”, afirma Kim, que um dia após sua eleição já lançou sua candidatura ao cargo de presidente da Câmara dos Deputados. Com 22 anos, Kim não poderia assumir constitucionalmente a Presidência da República – o presidente da Câmara dos Deputados é o terceiro na linha sucessória (após o presidente eleito e o vice) – pois a idade mínima para o cargo é de 35 anos.

Kim durante o Indaiatuba Matsuri com a mãe, a irmã e um amigo (Facebook/Indaiatubamatsuri)
Kim durante o Indaiatuba Matsuri com a mãe, a irmã e um amigo (Facebook/Indaiatubamatsuri)

Presidência da Câmara – Sobre isso, Kim afirma que a decisão – como no caso do presidente do Senado, Renan Calheiros – cabe ao Supremo Tribunal Federal. “Já foi pacificado. O que acontece é que, juridicamente eu posso assumir a Presidência da Câmara mas não posso estar na linha sucessória, do mesmo jeito que – é um exemplo ruim de dar – mas do mesmo jeito que o Renan Calheiros continuou sendo presidente do Senado, mesmo sendo réu”, diz ele, garantindo que sua candidatura já está lançada – a eleição já é no dia 1º de fevereiro.

Transparência – Ao tomar posse, Kim Kataguiri conta que pretende focar na atividade legislativa “porque é o que o poder efetivamente exige”. Depois, focar sua atividade no controle do executivo e orçamento que “muitas vezes não é exercido pelos deputados e por conta disso o debate orçamentário acontece completamente alheio à população, que não sabe onde vai o dinheiro e o que está sendo gasto”.
De diferente”, o Kim deputado federal conta que pretende lutar também para reduzir seus próprios poderes e “dos meus colegas também e lutar para centralizar cada vez mais os poderes nos municípios e estados porque acho que as formas mais centralizadas de governança são as que mais funcionaram ao redor do mundo”. “E ao mesmo tempo vou manter esse canal de transparência que, querendo ou não, meu voto – como o de outros vários novos que entraram – são votos de opinião e a gente sempre tem que manter esse canal aberto com o que está sendo discutido lá, o que a gente está propondo e qual a nossa posição sobre a pauta vigente”, diz ele, para quem a situação do Brasil é um “problema complexo”.

Privilégios – “Falar que tem uma solução seria populismo. Vamos passar ainda por momentos difíceis e não temos garantia se vai melhorar, mesmo com a vitória do Bolsonaro, porque, como disse, a principal reforma é a previdenciária, uma pauta que já apanhou bastante no governo Temer e tenho certeza que vai ter uma propaganda forte também contra a reforma previdenciária, com sindicato, manifestação, com paralisações em estados etc. Mas, eu, pessoalmente, acredito que as chances estão mais para que as coisas melhorem – não a ponto do PIB crescer 10% e a inflação ficar a 2% – mas acredito que a tendência está mais para que as coisas voltem aos trilhos nos próximos anos do que para piorar a situação”, explicou Kim, que ao Jornal Nippak reafirmou sua promessa de campanha de recusar verbas indenizatórias, direito a segurança, motorista, carro oficial e auxílio-moradia. “Não só não vou aceitar como também vou propor em projeto para que os outros também não tenham”, garantiu.

Comentários
Loading...