JORGE NAGAO: Oi, tô vivo, claro, tim!

Caminhava João pela praia, em Itanhaém, em frente ao Satélite, quando percebeu que o Luiz Carlos, também sócio do clube, se aproximava vindo do lado oposto. Ao saudá-lo, a fisionomia dele alterou-se visivelmente, parecia que ele estava vendo um fantasma. Entendeu, no ato, o porquê.
– Luiz, não morri, óbito, digo, óbvio. Foi o meu xará o Ramada mas o jornal do Satélite trocou as bolas e publicou o meu nome como o suposto falecido. Nós trabalhávamos na mesma agência central do BB, em São Paulo, com mil ou mais funcionários.
-Pô, cara, que susto! – disse ele, ainda lívido.
Conversamos amenidades, intercalados por instantes em silêncio, e logo nos despedimos ainda constrangidos.
Tudo começou, semanas antes, num domingo à noite, quando o Fernando telefonou ao João.
– Tudo bem? – perguntou ele.
– Tudo. E você? – devolveu a pergunta.
– Na boa. Estou te ligando porque o Wilian me ligou há pouco, querendo saber de você. Respondi que você estava bem. Então, ele me contou que estava na AABB e leu o seu nome na seção de óbitos do jornal do Satélite.
– Como assim? Foi outro João – informou ao velho amigo.
Amigo de infância (ou infantil como ele prefere dizer), Wilian, nosso amigo comum porém raro, era um sócio influente do clube e logo pediu para que recolhessem os exemplares expostos e ligou ao presidente do Satélite para informá-lo sobre a nota inverídica. Este, imediatamente, ordenou que inutilizassem as folhas daquele registro equivocado.
A correção foi feita mas alguns daqueles exemplares do jornal foram levados pra casa por alguns sócios, entre eles o Luiz Carlos que não comentou com ninguém e acreditou na versão da morte do João.
A ação rápida e eficiente do Wilian impediu que desafetos – quem não os tem?- comemorassem o fim da minha data de validade de João neste planeta insustentável. Na nova tiragem, com a retificação da triste nota, a dúvida ainda persistiu porque publicaram o prenome do João, inexistente no nome do colega que partira.
Vale lembrar que a nota de falecimento foi suscitada graças ao grande prestígio daquele funcionário muito querido pelos colegas. Fosse João a vítima do destino, certamente nem cogitariam naquela publicação pois ele era relativamente novo na agência. Contudo, João foi lembrado por algum desastrado que pegou a ficha errada e transmitiu os dados de João e da família ao editor. João é um cara de morte mas não é desses que dizem falem mal mas falem de mim.
Esse fato se passou em meados dos anos 90 quando a comunicação era limitada. Desconfio que ainda hoje existam algumas almas vivas que acham que o João já era. Talvez alguém o tenha visto por aí e se escafedeu em desabalada carreira, culpando a marvada. A cachaça.
João reencontrou o jornalista daquela publicação, há algum tempo, no sindicato dos bancários e eles comentaram, com bom humor, o episódio com seus colegas. Isento de culpa, o jornalista revelou que aquela trapalhada marcou sua carreira.
Há uns três anos, numa reunião de ex-funcionários, no Centro, João se encontrou com o Luiz, ex-presidente do Satélite, que “esCareliceu” alguns pontos daquele nefasto episódio. Claro que ele superou com tranquilidade aquela bananosa, enfim, sobreviveram todos.
Recentemente, João apareceu numa foto da revista Satélite. Imagina a reação de alguns associados:
– Ué, esse cara não morreu?!
Não, esse cara sou eu, diz o João:
– Estou Vivo, Claro, Tim Lopes que morreu, não eu. Se alguém ver o João no Satélite ou numa rua de Sampa ou de Itanhaém, não estranhe, hein?! Pois quem é vivo sempre aparece. João ainda pretende viver muito e fazer algo útil porque que quem é vivo sempre desaparece.

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