Hibakushas podem ter suas memórias registradas em livro

Memorial da Paz de Hiroshima: “Para que a catástrofe jamais seja esquecida” (Divulgação)
Memorial da Paz de Hiroshima: “Para que a catástrofe jamais seja esquecida” (Divulgação)

Os hibakushas – expressão japonesa usada para se referir às vítimas dos ataques da bomba atômica lançadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Mundial – que moram no Brasil poderão ter suas memórias registradas em livro. A ideia é da psicóloga nikkei Cristiane Izumi Nakagawa, que atua na área de psicologia clínica e desenvolve pesquisas relacionadas aos traumas decorrentes de situações de guerra.

Cristiane Nakagawa, que está em busca dos relatos dos hibakushas (Aldo Shiguti)
Cristiane Nakagawa, que está em busca dos relatos dos hibakushas (Aldo Shiguti)

Autora de “Órfãos de Hiroshima” e “Ayumi” – lançados pela Benjamin Editorial em 2015 e 2016, respectivamente, livros baseados em testemunhos de sobreviventes do bombardeio à cidade de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945 (além destes dois livros, ela participou também da organização da obra “Hiroshima e Nagasaki: testemunho, inscrição e memória das catástrofes”) – Cristiane conta que o projeto de publicar um novo livro com as memórias dos sobreviventes residentes no Brasil é, na verdade, fruto do seu trabalho de doutorado “Trauma e sentido, culpa e perdão, vergonha e honra nos hibakushas: um estudo de testemunhos e seus paradoxos” e este, por sua vez, é uma continuação de sua tese de mestrado defendida em 2014 com o título “Hiroshima: a catástrofe atômica e suas testemunhas”, um recorte histórico sobre o desenvolvimento e a construção das armas nucleares no período da Segunda Guerra Mundial cuja ideia era propor um debate sobre o papel do testemunho na sociedade moderna a partir de um enfoque psicanalítico.

Nobel – Por conta do doutorado, Cristiane esteve seis meses em Londres, de outubro de 2016 a março de 2017. Nesse período, estudou psicanálise e entrevistou a sobrevivente da catástrofe de 1945, Setsuko Thurlow, de 86 anos e que mora atualmente no Canadá. No ano passado, Thurlow recebeu, ao lado da diretora-executiva do Ican (sigla em inglês para Campanha Internacional pela Abolição de Armas Nucleares – uma organização que defende o fim das armas nucleares), Beatrice Fihn, o Prêmio Nobel da Paz.
“Através da conversa com Setsuko Thurlow, alguns sentimentos ficaram mais claros, como as questões da culpa e vergonha, que são marcantes nas memórias dos sobreviventes”, disse Cristiane, que posteriormente teve seu pedido de estágio na Hiroshima City University aprovado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Hiroshima – Em Hiroshima, onde ficou 50 dias, foi recebida pelo professor Robert Jacobs e visitou locais como o Memorial da Paz. Lá, o objetivo era entrevistar seis sobreviventes. “Seis porque seriam entrevistas longas”, explica Cristiane, lembrando que a ideia era passar três dias com cada entrevistado, sendo que no primeiro dia a conversa seria sobre as lembranças de antes da bomba; no segundso sobre o dia do lançamento da bomba e no terceiro falariam sobre as memórias dos dias que se seguiram depois da bomba.
Da dificuldade inicial para conseguir localizar candidatos para as entrevistas, Cristiane conta que acabou se surpreendendo com o resultado. “No final, foram 13 entrevistados e mais de 100 horas de gravação. Eles mesmos se prontificaram a falar”, disse, acrescentando que trabalhou cerca de 18 horas por dia.
“Chegou uma hora que larguei o que estava fazendo e me propus a ouvir. Foi uma oportunidade que muitos tiveram para tocar no assunto pela primeira vez. E eles queriam registrar isso”, destaca Cristiane, afirmando que foi até Osaka ouvir uma sobrevivente que estava com câncer terminal.
“Daí surgiu a necessidade de escrever um livro de memórias desses sobreviventes que moram no Brasil”, conta ela, afirmando que, pelos levantamentos dos próprios japoneses, o Brasil deve ter hoje mais de 100 hibakushas. “Eles ficaram muito interessados em ouvir as histórias dos sobreviventes que moram aqui”, diz Cristiane, que foi orientada a buscar novos caminhos.
No Brasil – “Tanto que já falei com o Enkyo – Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo – e nos próximos dias deverei procurar o Hospital Santa Cruz. Mas a minha preocupação ainda é localizar os que moram fora do Estado de São Paulo e que gostariam de ter suas memórias registradas para que suas histórias não se percam. Daqui a dez anos talvez não tenhamos mais contatos com aqueles sobreviventes que consideramos de 1º grau, ou seja, aqueles que hoje encontram-se na faixa etária entre os 84 e 86 anos e que ainda tem uma memória clara do que aconteceu. Essas memórias podem desaparecer com o tempo”, explica Cristiane, acrescentando que trata-se de um trabalho inédito até mesmo para os japoneses.
“No Memorial existe um trabalho há mais de 30 anos mas restrito, de registro de memórias sobre o dia da bomba”, diz ela, explicando que muitos preferiam o silêncio pois, além de todo os danos sofridos, ainda tiveram que enfrentar os mais variados tipos de medos e preconceitos. “Alguns chegavam a perguntar se não seria melhor ter morrido”, lembra Cristiane. “No Brasil, além de toda essa dor provocada pela guerra, temos ainda outros componentes que esses sobreviventes carregam, que foi a imigração. Acho que muitos têm vontade de falar”, diz Cristiane.

Contato – Quem conhecer ou souber de algum sobrevivente que queria deixar sua memória registrada no livro a ser publicado por Cristiane Nakagawa podem falar diretamente com a autora pelo telefone: 11/ 9 8293-4864.

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