ERIKA TAMURA: O que está acontecendo com as nossas crianças?

Eu resolvi escrever sobre esse tema, por vários motivos. Primeiro porque sou mãe. E segundo, porque estou vendo vários problemas acontecendo com a comunidade brasileira no Japão, e ninguém percebe, ou não que perceber.
Estive esse fim de semana na província de Shimane, na cidade de Izumo. Um lugar afastado de tudo, e com grande concentração brasileira e que continua crescendo. Os problemas que vejo ali, e que chega ao meu conhecimento, são na sua grande maioria, problemas que já passamos há 30 anos, quando iniciou-se o movimento dekassegui.
Pois então, eu pensei que, com a minha experiência, e atualmente trabalhando em uma ONG para esse tipo de assistência, eu pudesse ajudar os brasileiros que vivem em Shimane. Ledo engano! Fui inocente em achar que organizando seminários, eu estaria ajudando.
Na verdade, organizei dois seminários, que foram puro gasto de energia e verba, à toa. Eu digo isso porque, o comparecimento do público foi muito abaixo da expectativa. No começo achei que estivesse fazendo errado o seminário, e que por culpa da minha organização, não houve um comparecimento maior do público. Mas constatei que o público não comparece, por falta de interesse mesmo!
Como cheguei a essa conclusão? Durante um jantar, no dia anterior ao evento, estava conversando com o Cônsul Geral do Brasil em Nagoia, Nei F. Bitencourt, e representantes das duas empreiteiras responsáveis em empregar os brasileiros de Shimane e, durante a conversa, o cônsul fala que, os brasileiros que ali residem, exigiram um consulado itinerante, pois a distância dificulta muito a ida até Nagoia, além do preço da passagem, etc. Enfim, foi realizado o Consulado Itinerante, e compareceram apenas 100 pessoas. A expectativa era de 800 pessoas no mínimo, visto que residem 3 mil brasileiros no local.
Um dos representantes das empreiteiras, ali presente, ressaltou a falta de interesse dos funcionários em acompanhar a educação dos seus filhos. Existe uma preocupação real da empreiteira em diminuir a carga horária de trabalho das mães, para que essas possam se dedicar à assistência aos filhos, e o que aconteceu? Nenhuma mãe aceitou a carga horária menor, preferindo fazer horas extras para poder ganhar mais.
Entendo que, a preocupação com o aspecto financeiro seja grande, mas não acho que deva existir o detrimento da prioridade na educação dos filhos, em relação ao dinheiro.
Foi aí, durante esses relatos, que percebi que, no seminário não iria ninguém! Estou focando errado…
A minha preocupação são com jovens e crianças, mas eu deveria ter focado nos pais, pois os problemas todos vêem através das atitudes dos pais. Mas como conseguir chegar neles? Ainda não sei como…
Não os condeno, pois eu mesmo, já passei por isso! Quando cheguei no Japão, também pensava assim, só consegui abrir os olhos, depois do choque de ver o meu filho doente e quase morrendo.
Vi um artigo numa revista sobre educação infantil, que me chamou a atenção. O artigo diz sobre a tragédia silenciosa que afeta os filhos de hoje. Nesse mesmo artigo, contém dados que diz que 1 em cada 5 crianças tem problemas de saúde mental, aumento de 43% no TDAH, aumento de 37% na depressão adolescente e aumento de 100% na taxa de suicídio em crianças de 10 a 14 anos.
Meu Deus, tudo isso é muito grave! E esse artigo se refere as crianças no território brasileiro, imaginem o quanto sofrem as crianças que estão no Japão?
Tudo isso que constatei esse fim de semana me deixou muito desanimada. Dá vontade de virar as costas e falar: “Virem-se aí com seus filhos”. Mas ao mesmo tempo, quero agir, só não sei como…

Comentários
Loading...