ERIKA TAMURA: Machismo no Japão

Aproveitando essa época eleitoral, onde a palavra machismo e feminismo está tão amplamente na mídia, venho falar um pouco da minha experiência no Japão.
Vejo muitas mulheres no Brasil reclamando sobre declarações machistas ou comportamentos machistas, mas olha, vou falar que nada, mas NADA mesmo que acontece no Brasil, chega aos pés da realidade no Japão.
E eu posso falar com conhecimento de causa, pois já senti na pele todos os tipos de atitudes machistas dentro do mercado de trabalho japonês.
Trabalhei em uma fábrica de impressoras, famosa por sinal, e lá eu era líder de uma linha de produção, a maioria dos trabalhadores era composta por homens japoneses e mais velhos que eu. E ninguém acatava o que eu falava. NINGUÉM! Pelo contrário, faziam questão de agirem de forma errada para que eu levasse bronca dos meus superiores. Pois bem, foi preciso eu chegar na diretoria e relatar o que estava acontecendo, o meu superior precisou intervir, chamar todos para conversar, para que os funcionários seguissem as minhas instruções cotidianas.
A primeira vez que percebi que eu estava sendo subestimada por ser mulher, não acreditei. Como pode em pleno século 21, ainda ter que passar por isso?
Mas era verdade, era real. Era não, ainda é!
Até hoje, na ONG onde eu trabalho, lido diariamente com um senhor japonês, integrante da mesa diretora da entidade, que faz questão de me humilhar a todo momento. Tudo, exatamente tudo o que eu faço, é inadmissível aos seus olhos. E nenhum projeto apresentado por mim, é aprovado por essa pessoa. Todas as vezes em que consigo realizar um projeto é devido a interferência de alguém, ou o presidente da ONG, ou Embaixador, ou Cônsules. Nunca as minhas ideias são aprovadas em primeira instância, por causa dessa situação machista.
É difícil? Sim! Muito difícil, e cansativo! Mas, onde quer que eu vá trabalhar nesse Japão, sempre vou me deparar com situações semelhantes e com ambientes extremamente machistas.
Ainda tenho sorte, pois lido muito com brasileiros, e diretamente com o governo brasileiro, que ainda bem, não possuem essa visão machista.
Certa vez, em outro emprego, fui apresentar um produto para um hipermercado do Japão, para tentar fecharmos negócios. E quando entrei na sala de espera, não tinha uma mulher sequer. Todos homens, vestidos iguais, com seus ternos pretos, maletas em mãos. Realmente o Japão ainda precisa evoluir e muito nessa parte.
O Japão é um país incrível, mas no mundo do mercado de trabalho, ainda lidamos com essa situação paradoxal. Onde não é meritocracia, e sim, perfil de trabalhador, que é levado em conta.
Mas podemos dizer que o país está mudando. A passos lentos, é verdade, mas o que importa é que caminha para uma mudança.Vai levar muito tempo para o Japão perder o machismo, que ainda existe, mesmo que ele seja velado ou maquiado.
A minha filha, com 15 anos, está naquela fase da força do poder feminino. Fez redações sobre o feminismo, quer combater o machismo… A famosa utopia adolescente. Pois eu disse à ela:
“Nunca queira trabalhar no Japão!”. Ela enlouqueceria no primeiro minuto.
Diante de todos os meus relatos, a minha filha respondeu: “ Que triste isso!”.
Triste, essa é a palavra que define o que eu sinto cada vez que sou humilhada na ONG onde eu trabalho. Mas também, a raiva que me dá, serve como uma mola propulsora, para fazer com que eu prove que a ideia desse senhor japonês está totalmente equivocada e que sou mulher e sou capaz de desempenhar o meu papel.
O pior é ver que na frente das outras pessoas, esse senhor se faz de elegante, educado e ótima pessoa, mas me trata pior que um animal.
A cada palavra e ato de humilhação, a minha resposta é em forma de trabalho. E é assim que o mundo gira…

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