ERIKA TAMURA: Envelhecimento da comunidade brasileira no Japão

Há muito tempo que eu queria abordar esse tema, mas a oportunidade só me veio agora.

Semana passada, tivemos uma reunião no Conselho de Cidadãos de Tóquio, e uma das pautas abordadas foi sobre o envelhecimento da comunidade brasileira no Japão.

Percebi e me atentei para esse problema, assim que comecei a trabalhar na NPO SABJA, e percebi um grande número de pessoas depressivas na idade acima de 50 anos. Conversando com o psicólogo, e alguns diretores, chegamos a conclusão que a causa da maioria dos casos de depressão, na faixa etária acima de 40 anos, é a falta de perspectiva em relação ao futuro.

São dekasseguis que vieram trabalhar no Japão, no auge do movimento, e que na época não pensaram em aposentadoria, fundo de garantia,nada disso. Não houve uma precaução para o envelhecimento, pois muitos acreditavam que trabalhar no Japão seria um processo momentâneo.

Eu mesma, quando cheguei no Japão, há 20 anos, não fui inclusa em nenhum seguro social do governo, pois na época não era obrigatório. Mas eu sempre quis, e batalhei para que eu tivesse os mesmos direitos de um cidadão japonês, pagador de todos os impostos.

Confesso que pago o “nenkin” do Japão com um pé atrás, pois além de caro, eu me pergunto se eu terei o direito assegurado de recebe-lo. Teoricamente sim. Por direito, sim também… Mas por que me sinto insegura? Pela falta de informação.

Gostaria mesmo, de ter mais acesso as informações sobre o acordo previdenciário, gostaria de que me mostrassem que o dinheiro que eu pago todos os meses, é um direito adquirido da minha pessoa.

E é por falta de informação, que temos como consequência, a falta de conscientização para a necessidade de se planejar a longo prazo, e pensar seriamente no futuro.

Não só aqui no Japão, mas acredito que, em qualquer lugar do mundo, conforme o avanço da idade, torna-se mais difícil a procura por emprego. O mercado exige alguns requisitos onde as oportunidades vão se afunilando, e dentro da comunidade brasileira no Japão, não é diferente.

E qual a realidade que temos hoje? O envelhecimento daqueles dekasseguis que vieram trabalhar no Japão, e que lá atrás não foram amparados com o pagamento do seguro social. Hoje, têm dificuldades em arranjar ou se manter em um emprego, consequentemente passam por algumas dificuldades financeiras.

Não é de se admirar que o pedido de “seikatsu hogo” (ajuda que o governo japonês dá para quem passa por necessidade), tem aumentado dentro da comunidade brasileira. Mesmo sendo difícil conseguir receber, devido a forma criteriosa de seleção, mesmo sendo um valor baixo, muitos brasileiros encontram uma saída nessa ajuda financeira dada pelo governo japonês.

Muito se fala em envelhecimento da população japonesa ativa, fazendo com que haja uma crise previdenciária no país, mas temos que olhar para dentro da nossa comunidade também. E mais, trabalhar para que esse ciclo se quebre, e que os jovens hoje sejam conscientes da importância em se pagar uma previdência social.

Apesar de todas as minhas dúvidas, como mencionei acima, eu pago. E faço questão de pagar, ninguém sabe o dia de amanhã.

O que eu não consigo entender é que, ainda hoje, existam brasileiros que se recusam a entrar em qualquer tipo de seguridade social. Basta olharmos os fatos e vermos que algo precisa ser feito, pois não é um problema para ser pensado daqui a 10 anos, e sim agora!

Conscientização e informação é a solução para que a longo prazo, o problema não se torne pandêmico.

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