ERIKA TAMURA: A prisão de Carlos Ghosn

Essa semana o mundo “business” está em choque. Tudo, devido à prisão de Carlos Ghosn, presidente do Conselho Administrativo da Nissan, e ex-CEO da montadora, entre tantos outros cargos que desempenha.
A mídia japonesa não tem dado trégua ao assunto, falando exaustivamente sobre a sonegação fiscal relacionada ao seu salário, o motivo de sua prisão.
Eu vou dar a minha opinião, deixando bem claro, que é uma opinião bem subjetiva, sem maiores comprometimentos com nada e com ninguém.
Vamos lá…
Ghosn, foi o responsável pela ascensão da Nissan, quando esta se encontrava a beira da falência no Japão. E, para levantar a Nissan e fazer dela o que ela é hoje, precisou tomar decisões drásticas e anti-hierárquicas, e claro que, as suas decisões chocaram o mundo corporativo japonês. Imaginem só, um estrangeiro toma a frente de uma grande indústria tradicional japonesa e muda tudo! Passando como um rolo compressor em cima de tudo? Claro que os japoneses tradicionais (a maioria) torceu o nariz para essa realidade.
A Nissan foi para o topo dos negócios bem sucedidos no Japão, passou a Honda e ficou somente atrás da Toyota no mercado interno de carros. Pois bem, Ghosn calou a boca de muita gente, e durante muitos anos.
Nada me tira da cabeça que, ele pode ter caído em uma cilada manipulada pelos próprios japoneses da Nissan. Não estou acusando ninguém, e também nem quero inocentar o executivo, até concordo que, ele tem que pagar pelos erros comprovadamente cometidos, mas gostaria que todos os meus leitores refletissem com um pensamento que vou compartilhar aqui, do meu amigo Diego Utiyama, para tentar resumir tudo o que eu acho:
“Em empresas de capital aberto como a Nissan-Renault-Mitsubishi, o salário de cada executivo precisa ser aprovado pelo conselho administrativo, além disso, o Japão obriga que todo salário maior que 100 milhões de yenes fique disponível para consulta.
Empresas de capital aberto são obrigadas a fornecer balanços financeiros e dados detalhados para os acionistas, ou seja, todo mundo sabia quanto o Ghosn ganhou durante todos esses anos.
Empresas listadas em bolsa possuem um CEO, e toda uma estrutura organizacional para autorizar, e processar a saída de capital, todos esses dados precisam ser repassados à receita federal de cada país. Uma vez que o salário dos executivos do porte de Ghosn é público, como é que o governo não descobriu em 20 anos, que haviam discrepâncias entre o salário anunciado e os valores retidos em fonte pela empresa e repassados ao governo? Ghosn estava tendo atritos com o CEO da Nissan já há algum tempo, pois queria realizar uma fusão permanente da Nissan com a Renault, o que era tido como inaceitável pela outra parte. Um é o estrangeiro superstar, o outro o nativo invejoso louco pelo poder. Imagina quem rodou nessa brincadeira?”
Para nós, simples mortais assalariados brasileiros no Japão, o que aprendemos com essa história? Simples, é exatamente a retratação de tudo o que já escrevi um dia: Aqui no Japão, você tem que ser bom todos os dias, e provar! E se você for excepcional, tem que ser todos os dias, um exercício de superação. E se um dia falhar, pode ser um meio erro, mas falhar, você está fora! Japoneses irão apontar o dedo na sua cara e te julgar por tudo!
Sei que tem pessoas que não vão concordar comigo, mas não precisa concordar, só pensar e refletir. É exatamente assim que funciona o mundo corporativo no Japão. Excelência em tudo, mas cruel.
E foi assim com Ghosn, não estou mentindo, vejam a realidade. O cara que levantou a Nissan, e que atualmente estava levando nas costas a Mitsubishi (Caminhões) que estava praticamente falida, hoje é réu.

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