Chuva Negra na lente de Shohei Imamura

Foi em 6 de agosto de 1945, às 8h15, que um clarão iluminou como um relâmpago a sala em que acontecia uma aula de Cerimônia de Chá. Assim, começa a narrativa de Kuroi AmeChuva Negra, de 1989, do diretor Shohei Imamura, distribuído pela Tohei e do Grupo Imamura Hayashiba. Este filme teve por original o romance Kuroi Ame, de autoria de Ibuse Masuji. Filmado em preto e branco, um tema tão dramático, coloca em questão os danos provocados pela explosão da bomba atômica, a primeira a ser lançada sobre uma população civil.

Numa baia, ao lado da cidade bombardeada, pode-se ver claramente a fumaça em cogumelo levantando-se de maneira sinistra, espalhando pelo ar uma infinidade de moléculas atômicas. Num barco, encontram-se alguns, que ainda desconheciam os danos causados pela explosão. Lá estava Yasuko, que pressente a vinda de uma tormenta, que ao cair subitamente sobre as pessoas, a água tem uma coloração negra. Trata-se da chuva negra.

Nada acontece nos próximos cinco anos, até que os tios de Yasuko deparam com a idade em que ela deve contrair matrimônio. É o momento em que se procura por um noivo, no sistema apresentação. Havia, no entanto, a exigência de um atestado de saúde para que o casamento pudesse ser realizado. Aqueles que tinham sido afetado pelos efeitos da bomba, logo seriam descartados. Era um tipo de segregação entre os saudáveis e os doentes e aqueles que estavam entre os suspeitos de desenvolver mais tarde a doença da radioatividade.

Segundo o tio de Yasuko, Shizuma Shigematsu, ela se encontrava distante da explosão, o que pode ser comprovado pelo diário escrito por ela. É através do diário dela, que novamente as recordações vêm à tona: nada mais horroroso do que as cenas dirigidas por Imamura, que numa plástica monstruosa, as vítimas são zumbis caminhando pelas ruas de Hiroshima, pedindo por água. Este tema da água aparece também num trabalho de Akira Kurosawa, em Rapsódia de Agosto, de 1991. Num certo momento, alguns jovens visitam a praça em que lembra as vítimas. Monumentos doados pelos países do mundo todo aparecem, inclusive o do Brasil. Sabendo da sede das vítimas, eles passam a jogar água no monumento, como que pudessem dirimir os seus sofrimentos.

Existe uma poética na filmagem de Imamura, que trabalha justamente com o branco e as sombras do negro, clareando e escurecendo, como a explosão luminosa da bomba e seguida da fumaça negra. Nenhuma luz do sol, apenas da explosão. Depois daquela tragédia, nenhuma cor mais era possível, apresentando tudo em preto e branco, que em si não choca, serve inclusive para ameninar as feridas expostas, a fumaça que sai branca, num mundo em que deixou de existir também a claridade natural do sol. Se o sol existe, encontra-se sem força, que não consegue mais dourar as peles.

Mas as cigarras estão cantando energicamente em Hiroshima. Pode ser uma vida curta, mas enquanto podem gozar a vida, não perderam a esperança de continuar cantando. Uma moça do pós-guerra deixou a vila e foi trabalhar num cabaré de Kobe, depois de Fukuyama. Cada um dos atores desta tragédia procura viver a própria vida, esquecendo-se das agruras vividas anteriormente. Mas para alguns, o passado é ainda presente em suas loucuras. Acontece isso com o jovem Yuichi, que não suporta ouvir o motor ligado de um caminhão, de uma motocicleta, que se lembra dos tanques inimigos atacando pela retaguarda. Passa a maior parte do tempo malhando uma talhadeira as pedras a fim de confeccionar a imagem de Jizo.

As imagens de Jizo são confeccionadas em locais em que aconteceram desastres. Conforme o budismo, o Jizo é o viajante dos seis mundos, locais de sofrimento e padecimento. As imagens de Yuichi nada se parecem com o Jizo em sua calma, na tranquilidade do rosto sorridente e curador. Bem diferente disso, parecem com arhats, os primeiros discípulos de Buda, que em seu treinamento para a Iluminação tinham que submeter-se à eliminação do ego, assim despertar a compaixão. A loucura de Yuichi é justificada em não aceitar a guerra, um mal em si, que por diversas vezes faz lembrar o diretor Shohei Imamura.

Este Kuroi Ame não dispõe de heróis, sendo o mal a ser combatido a própria condição da vida devido aos erros do passado. Nenhuma alegria em se tratando da guerra. São perdedores aqueles que perdem, também aqueles que ganham, que além de provocarem sofrimentos, deixa de existir qualquer orgulho em se tratando de destruição. Nenhuma guerra é justificada, senão a de loucura, como a de Yuichi, que ainda sente a obrigação em deter os comandos inimigos com lanças de bambu.

Possivelmente Yuichi seja a pessoa mais sensata em não aceitar o absurdo da condição humana.

Enquanto isso, as mortes dos que foram afetados pelo mal vão morrendo, o que deve acontecer com os tios de Yasuko, vítimas tardias daquele mal. Os amigos e conhecidos vão formando a fila dos que partem. Cada um depois de cumprir por algum momento o sonho de ser um sobrevivente. Não se sabia até quando. O próprio Shizuma, no pós-guerra, é convocada a ler os sutras budistas, sem ser um oficiante autorizado para isso. Mas isso era apenas um detalhe. Algo tinha que ser feito, assim ele fez. Quanto a Yasuko, todo sonho de casamento acaba quando constata que também se encontra enferma.

Este filme ganhou o Japan Academy Prize pelo melhor filme daquele ano. Também ganhou o Cannes Film Festival 1989, com a indicação na categoria Menção Especial.

Comentários
Loading...