CANTO DO BACURI > Mari Satake: Um xerife?

Naquele hipotético país, havia uma parcela significativa da população que era muito, mas muito pobre. Comer as três refeições diárias era algo impensável para eles. Quando muito, comiam um prato de comida por alguns dias seguidos para em seguida, enganarem a fome com farinha e água e se a sorte lhes sorrisse, comiam alguma fruta perdida pelos caminhos em que andavam. Também havia aqueles um pouco mais afortunados, aqueles que tinham algum trabalho que lhes garantia o arroz com feijão de todo santo dia, nada mais que isso. Acima deles, os que podiam um pouco mais; além da comida diária, eram capazes de manter a prole na escola para o aprendizado básico. Depois vinham aqueles que viviam de forma um pouco mais folgada, os que podiam manter seus filhos na escola por um tempo um pouco maior. Em comum, é que eram todos pobres. Em maior ou menor grau. Lutadores, sobreviventes.
Depois vinham os remediados, também em maior ou menor escala, mas remediados, dependentes todos de seu labor. Eram os funcionários públicos, os profissionais liberais, os artistas, os comerciantes, os pequenos e médios fabricantes. Neste grupo havia uma parcela de gente muito boa. Eram aqueles com pensamentos altruístas, eles sonhavam e lutavam para manter a luz da esperança sempre acesa, acreditavam que um mundo melhor sempre seria possível com o esforço e colaboração de todos. Mas, também havia aquelas pessoas iludidas que se achavam tão poderosas quanto os que de fato eram os donos do dinheiro, eles eram terríveis: iletrados, imediatistas, comedores vorazes.
Lá no topo da escala, estavam aqueles que constituíam a minoria da sociedade daquele hipotético país. Eram os donos do poder, os antigos senhores das terras e seus descendentes. Estes, só sabiam ver a si mesmos e aos seus semelhantes. Viviam como nos tempos do senhor e do escravo. Escravos eram todos aqueles que não lhes eram iguais. Também nesta categoria, embora em número muito diminuto, se encontravam alguns seres de pensamentos e sensibilidades mais elevadas. Mas eram poucos, muito poucos. E, estes poucos, acabavam indo viver em outros cantos do mundo. A vida onde nasceram era muito tacanha para eles.
Aos trancos e barrancos, o povo daquele país foi atravessando os séculos, sempre na rabeira dos grandes acontecimentos mundiais. E não é que no despertar do último século, um ser vindo lá das profundezas da miséria que sempre assolou o país, conseguiu se destacar e merecer o reconhecimento?
Pois é! Isto aconteceu e este ser conseguiu dar um certo destaque internacional ao exótico hipotético país. Ele fez e aconteceu. O povo cresceu em si. Mas ele não era querido por todos. Havia a parcela dos descontentes, quase sempre oriundos daquela minoria que sempre viveu no topo e, como sempre, à minoria se juntavam os iludidos de sua condição essencial, os tolos úteis, sempre descartados quando já não mais apresentassem serventia aos senhores.
De tragédias em tragédias, resultou que tiraram do convívio social o ser saído das profundezas da miséria. Cercearam a sua liberdade. Não lhe tiraram a voz e nem a fala. Ainda.
Hoje, no hipotético país circula um messias às avessas. Ele insiste em acreditar que colocará ordem na casa. Como um xerife, acha que armar a população é a melhor solução; acha também que aqueles cujos pensamentos são contrários aos seus, devem ser eliminados para não atrapalharem seu caminho. Às mulheres dá um tratamento especialíssimo, mulheres são coisas a serem utilizadas para satisfação de seus instintos de macho procriador.
Imagine como seria. Infeliz população daquele hipotético país com um xerife tomando as decisões para reger a ordem, a liberdade, a paz. Pura insensatez.

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