CANTO DO BACURI > Mari Satake: Pequenas estórias

Era um sábado. Estava trabalhando no velho fogão do salão do templo e vi o rapaz se aproximando. Primeiro ele parou do lado de fora e pelo vidro dos janelões ficou me observando. Fiz que não percebia. Não demorou muito e ele entrou. Sem cumprimentar e nem pedir licença foi logo perguntado para que eram aquelas velas coloridas. Não gostei de sua aproximação, mesmo assim, respondi. Em seguida quis saber onde eu arrumava a parafina. Expliquei que ali era um templo religioso, velas eram utilizadas com abundância e sempre havia muitas para serem recicladas. Não contente quis saber mais e se não tivesse para reciclar, seria necessário comprar parafina e onde eu compraria? Sem lhe responder o que me perguntava, perguntei-lhe porque estava tão interessado naquele assunto. Respondeu-me que não era nada ligado ao seu trabalho de ajudante do Buffet não, mas seus amigos, tem um pessoal que usa muita parafina. Abriu um sorriso e disse que tem a sua turma de rua no bairro onde sempre morou desde que nasceu. Se pudesse, ficaria o dia, a vida toda só fazendo aquilo com os seus amigos. Pedi para me explicar direito. Eu não estava entendendo. Ele então, como se me segredasse algo muito sério, falou em voz baixa: – a gente faz e solta balões. Sorria. Seus olhos brilhavam. Queria saber se alguma vez eu já tinha visto enormes balões coloridos subindo ao céu enquanto rojões pipocavam. Sorria de prazer e repetia: – se eu pudesse só fazia isso na minha vida. Eu ali observando e escutando. Não demorou muito para a desmancha prazeres entrar em ação. Perguntei-lhe se ele e seus amigos tinham noção do quanto era perigoso soltar aqueles balões na cidade. Rindo, ele respondeu que a graça era justamente aquela. E eles sempre faziam tudo muito bem feito e tinham lá as suas estratégias de fuga. Perguntei ao rapaz se tinha noção de que soltar balões era errado e muito perigoso. Insolente, respondeu que sim. Mas, qual o problema? Ele, desde que se entende por gente só vê coisas erradas neste país e começou a desfiar os seus lamentos e misérias para se manter em pé.

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