CANTO DO BACURI > Mari Satake: O pequeno homem

Num hipotético país, era o filho único de família endinheirada. Criado pelos empregados via muito pouco o pai ou a mãe. Pequeno ainda, reinava dentro de casa. Verdadeiro tirano em miniatura. O pequeno tirano cresceu. Não muito, é verdade. Se alcançou os 1,60 metros de altura, já era muito. Mas isso para ele, era o de menos. Ele desde sempre, sabia. Era rico. E como quase todo filho de rico, foi estudar direito. Pasmem! Entrou na renomada faculdade de direito do país. Conseguiu o certificado de conclusão do curso. Depois, o registro do órgão de classe. Quis brincar de trabalhar e foi nomeado para algum cargo importante. Ele era rico desde sempre. Fez suas articulações. Transitava entre os seus iguais. Mais tarde, já homenzinho, casado e pai de família, quis enveredar pelos caminhos da política. Na vida política nunca se destacou. Era apenas mais um entre tantos. Mas sabia muito bem fazer suas articulações. Foi ficando cada vez mais rico.
Uns diziam que nasceu virado para a lua. Devia ser mesmo.
Certa noite, era uma daquelas em que, apesar de ser muito rico, se viu só e sem uma única companhia disposta a ouvir suas façanhas. De repente, uma bela dona disse qualquer coisa para chamar a sua atenção. Ele prontamente, se virou e pensou ter diante de si a própria Vênus vestida de vermelho. Dúvidas o assaltaram. Seria mesmo Vênus? Chegou à conclusão que era apenas uma desprotegida ninfa e, imediatamente, ele a quis para si.
Depois daquela noite, aquele pequeno homem foi tomado de uma disposição sem igual. Passou a se tratar como nunca se viu antes. Sessões de musculação, mudança radical na dieta diária, plásticas, laser para correções pelo corpo todo, reforma total de seu guarda-roupa. E, é claro, adeus à velha esposa. Não demorou muito, ele passou a desfilar com a sua nova aquisição. A Ninfa de seus milagres. Ele, com idade quase suficiente para ser seu avô, passou a circular com a bela ninfa. As trocas de juras de amor eterno eram infindas. Eles se casaram e tiveram um lindo filhinho.
Poderoso. Ele passou a ter delírios de grandeza. Sua sede de poder e demonstração de força eram imensas, assim como sua necessidade de acumular mais e mais riquezas para o filhinho. Sempre nos arredores do poder, teceu suas articulações. Aliou-se com maior força aos seus iguais. Fez o diabo. Tanto fez que tomou de assalto a cadeira ocupada por outra pessoa para brincar de ocupar o cargo máximo. Enquanto ele brincava, milhões de pessoas foram destituídas de seus postos de trabalho, a fome voltou a assombrar pelo país. Em muito pouco tempo, o pequeno homem quase conseguiu arrasar a auto estima de quase todo o povo daquele hipotético país.
País a deriva. Até quando?

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