CANTO DO BACURI > Mari Satake: O baloeiro

Era um sábado. Estava trabalhando no velho fogão do salão do templo e vi o rapaz se aproximando. Primeiro ele parou do lado de fora e, pelo vidro dos janelões, ficou me observando. Fiz que não percebia. Não demorou muito e ele entrou. Sem cumprimentar e nem pedir licença foi logo perguntado para que eram aquelas velas coloridas. Não gostei de sua aproximação, mesmo assim, respondi. Em seguida quis saber onde eu arrumava a parafina. Expliquei que ali era um templo religioso, velas eram utilizadas com abundância e sempre havia muitas para serem recicladas. Não contente quis saber mais e se não tivesse para reciclar, seria necessário comprar parafina e onde eu compraria? Sem lhe responder o que me perguntava, perguntei-lhe porque estava tão interessado naquele assunto. Respondeu-me que não era nada ligado ao seu trabalho de ajudante do Buffet não. Ah! mas de seus amigos…. tem um pessoal que usa muita parafina. Abriu um sorriso e disse que tem a sua turma de rua no bairro onde sempre morou desde que nasceu. Se pudesse, ficaria o dia, a vida toda só fazendo aquilo com os seus amigos. Pedi para me explicar direito. Eu não estava entendendo. Ele então, como se me segredasse algo muito sério, falou em voz baixa: – a gente faz e solta balões. Sorria. Seus olhos brilhavam. Queria saber se alguma vez eu já tinha visto enormes balões coloridos subindo ao céu enquanto rojões pipocavam. Sorria de prazer e repetia: – se eu pudesse só fazia isso na minha vida. Eu ali observando e escutando. Não demorou muito para a desmancha prazeres entrar em ação. Perguntei-lhe se ele e seus amigos tinham noção do quanto era perigoso soltar aqueles balões na cidade. Rindo, ele respondeu que a graça era justamente aquela. E eles sempre faziam tudo muito bem feito e tinham também as suas estratégias de fuga. Em seguida, sua expressão foi se contraindo e passou ele a me perguntar: então é certo alguém da idade dele perder o emprego de quase dez anos e ficar mais de dois anos sem conseguir nada fixo? Isso é certo? É certo trabalhar apenas aos sábados e domingos sem direito a nada além do valor irrisório da diária que recebe? É certo a irmã não conseguir colocação nenhuma, mesmo tendo se formado na faculdade? Irredutível, ele disse estar tudo errado e que ninguém lhe critique por gostar de soltar balões pela cidade.
Nota: da vez passada, enviei um arquivo errado. Espero que o leitor compreenda a tentativa de consertar o erro.

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