CANTO DO BACURI > Mari Satake: Noite de Natal

Começo de noite no centro daquela imensa cidade. Do alto, da sacada de seu quarto de hotel ela apenas observava. A noite começava a cair. Pelas ruas homens e mulheres carregados de pacotes e sacolas andavam apressados nos dois sentidos. Portas se cerravam. Caixas e mais caixas eram amontoadas nos cantos das calçadas. Rapidamente, o fluxo de pessoas começava a diminuir. Ao mesmo tempo, caminhões de limpeza iam entrando pelas ruas. Instantaneamente as caixas eram retiradas enquanto os caminhões avançavam. Rápidos e ferozes, homens e máquinas iam avançando pelas ruas com seus jatos d’água. Nada parecia ver aqueles homens dos caminhões que, aos berros, avançavam pelas ruas. Em poucos minutos, atrás de si, ficavam as ruas silenciosas, limpas.
Quando toda a limpeza parecia terminada pelos arredores, ela resolveu andar um pouco por aquelas ruas agora desertas. Bares e restaurantes todos fechados. Nenhum transeunte perdido pelas ruas. Como em quase todas as cidades, também ali, as luzes de Natal piscavam.
Enquanto caminhava, ela pensava por onde estariam todos aqueles homens e mulheres que pareciam morar naquelas calçadas. Estariam com seus familiares, abrigados em algum lar? Estariam abrigados em algum albergue municipal?
Pensava na própria vida. Lembrava-se de sua infância. Sua família sempre foi pequena. Diferente da maioria das famílias. Lembrou-se da Missa do Galo. Ela sempre quis assistir uma Missa do Galo. A família não tinha o hábito. Ela, na sua inocência, ficava imaginando se galos cantariam o seu canto durante a missa? Ri da ingenuidade daqueles distantes tempos. Percebe que está bem perto da igreja matriz da cidade. Caminha até lá. A porta principal está aberta. Ela entra. A igreja está cheia. Homens e mulheres. Jovens e velhos. Algumas crianças. Logo, uma senhora se aproxima. Deve ter percebido que era uma estranha ali. Lhe dá as boas-vindas e a convida para compartilhar e conhecer o jantar que será oferecido logo mais, às 21:30 horas. Ela estranha e quer saber mais. A boa senhora lhe fala do trabalho que começou há muitos anos, ela e um grupo de fiéis. A ideia inicial era apenas oferecer um prato de comida aos que não tinham abrigo. Começaram o trabalho há mais de trinta anos, foram ganhando adesões, receberam como doação um terreno ao lado da matriz, conseguiram construir galpões onde atualmente são realizados os trabalhos voluntários pela comunidade local. Ela fica encantada com as palavras da mulher. Aceita o convite para conhecer o local. Saem da igreja pela porta lateral e seguem pelo terreno vizinho. Num imenso galpão, homens e mulheres, velhos, jovens e crianças, banhados e com vestes simples, espalhados pelas diversas mesas, aguardam pela hora do jantar enquanto são entretidos pelos mestres de cerimônia que os animam com pequenas brincadeiras.
Sem palavras quase, ela apenas ouve e vê. Agradecida, ela se despede da boa senhora. Apressadamente, ela caminha de volta ao hotel. As ruas continuam desertas. O pouco movimento que vê, são uns poucos carros com gente entrando ou saindo dos hotéis ali na região onde escolheu se hospedar.
Ela chega ao seu hotel, recebe as boas vindas, confirma a sua presença na ceia de logo mais e corre para se arrumar. É Noite de Natal!

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