CANTO DO BACURI > Mari Satake: Dezembro

Tarde da noite. Silêncio na vizinhança. Vez ou outra, de muito longe, escuta o apito do guarda noturno que percorre pelas ruas. Pensa nas suas longas noites improdutivas. Se ao menos ainda pudesse ir até o mar para nadar. Mas agora, isso está fora de cogitações. Foi se o tempo em que podia sair para nadar madrugada adentro. Agora, no máximo, pode se dar ao luxo de descer para fumar seu cigarrinho no jardim do prédio. Pensando bem, nem isso ela faz mais. Nem no próprio prédio sente-se segura. Ultimamente, com essa onda de terceirizações de mãos de obra e substituição de gente por aparatos tecnológicos, o prédio virou um caixote blindado. Para entrar ou sair, somente com o dispositivo eletrônico ou as digitais. Porteiro já não há. O pessoal da limpeza ou da manutenção, também já não os vê. Mesmo que os visse, no dia seguinte não os reconheceria. Eles nunca são os mesmos. Ela sabe que são os prestadores de serviços do prédio pela cor da farda que vestem. As cartas e encomendas felizmente continuam chegando e sendo entregues. Desde que, o caminhão aperte a campainha do portão certo, é verdade.
Ela se lembra. Nem faz tanto tempo. Em noites assim, ela simplesmente vestia sua roupa de banho e saia para nadar. Na praia deserta, deixava seu roupão no quiosque do coco e corria ao mar. Nadava, nadava até quando nada mais parecia existir, apenas ela e seus movimentos na água do mar. Era em momentos como aquele que ela se sentia em comunhão com Deus, em comunhão com a natureza. Agora, ela já não se atreve mais a deixar seu apartamento tarde da noite. Acende mais um cigarro, brinca com o movimento das fumaças que solta pelo ar. É. Ela deu para isso. Agora fuma desses cigarros horrorosos. E ri de si mesma. Nem barato dá.
O barulho lá fora começa a aumentar. Carros e ônibus começam a circular em quantidade maior. Ainda está escuro, mas logo, logo será dia. Mais um daqueles longos dias de verão. Dias intermináveis de calor de cozinhar os miolos. Começa a clarear. Mais uma noite improdutiva que finda. O sono começa a chegar. Ela apaga seu cigarro. Lava as mãos, o rosto, a boca. Prepara a sua xícara de chá com a erva calmante e enquanto espera que o chá esfrie um pouco, ela canta para si mesma a canção de ninar que o filho lhe pedia.
Há tanto tempo.
Pensa no filho. Também ele deverá ter seus filhos. Hoje, homem feito. Ela quase já não o vê. Às vezes, fica semanas sem ter notícias. Seu coração de mãe fica apreensivo, ela apenas ora para que ele possa continuar a sua missão cuidando de alguém em algum canto do planeta. Menino ainda, ele dizia que faria medicina como o pai para cuidar dos mais necessitados. Está cuidando.
Pensa na filha. Casou-se menina ainda. Hoje, cheia de filhos. Seus netos. Ela ainda não foi conhecer a neta mais nova. Ultimamente só se falam pelo celular. A filha diz que a menina mais nova é sua réplica. Como é que pode? Aquele ser mimoso, delicado como uma florzinha do campo ser uma cópia sua? Ela custa a acreditar.
Ela se prepara. Ainda este ano, fará suas malas e irá se encontrar com seu filho e a nora. Ficarão juntos por alguns dias na cidade natal da nora e depois partirão para a fazenda onde mora a filha.
Só de pensar que por alguns dias estará cercada de gente, seus filhos, netos e pessoas que quase nem conhece, ela se amedronta um pouco. Vivendo só há tempo e com tão pouco contato social ela se pergunta se saberá lidar bem com tantas e variadas pessoas. Ela sabe que sim. Como sempre, fará tudo de acordo com o protocolo. Saberá aceitar e sorrir. E como sempre, depois que tudo passar, ela voltará para a sua solitária vida, sentirá um enorme cansaço e a imensa saudade de seu marido a deixará inerte por alguns dias. Dormirá por horas. Mas logo a vida a chamará de volta e ela outra vez, será tomada por um sem fim de coisas a fazer. Até a próxima parada.

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