CANTO DO BACURI > Mari Satake: Até breve

Naqueles dias, ele sentia que precisava retirar-se dali. Estava cansado de ter que sempre dar as mesmas respostas que sabia. Ninguém mais, as ouvia. E se alguém ouvia, era apenas como se ouve uma daquelas canções de salas de espera de dentistas. E como é que poderia ser diferente se nem ele próprio, muitas vezes, já não acreditava no que dizia.
Lembrava-se de quando ali chegou. A comunidade era pequena. Eram poucos os frequentadores. Ele era jovem e cheio de vontade. Acreditava naquilo que dizia e fazia. Eram outros tempos aqueles. Tempos difíceis. Estavam todos acostumados a ouvirem calados. No começo, as pessoas só lhe falavam quando a sós, raramente se manifestavam em público. Mas, aos poucos, as coisas ali foram mudando. Houve época em que conseguiu juntar até cerca de mil pessoas em suas palestras. Foi bonito ver a transformação daquelas pessoas antes tão caladas. Foram aos poucos, tomando posse de suas falas, de suas ações. As transformações eram visíveis não só ali, mas na sociedade, de modo geral.
Agora, o que ele vê é uma espécie de volta aos velhos tempos. Novamente aqueles semblantes sombrios. As falas contidas.
Também ele se sente cansado. Ele sabe que errou. Ele e seus parceiros de jornada e crenças. Mas agora não é hora de chorar sobre os erros cometidos. Agora é tempo de se reavaliarem todos e mais do que nunca, reforçarem seus laços de união.
Amanhã será um dia difícil. Terá que comunicar aos seus inúmeros seguidores que logo, logo chegará uma nova missão e ele terá que partir.
Desde que sentiu que precisava se afastar dali, foram inúmeras as manifestações de amizade que recebeu. Todas, preocupadas com seu bem-estar futuro. Temem pelo que poderá surgir, temem pela destruição do trabalho coletivo feito ao longo destes quase quarenta anos de convivência. Diante das inúmeras angústias que lhe são apresentadas, ele apenas pede que se mantenham sempre unidos e firmes na crença do propósito de vida que os trouxe até aqui. Mais do que nunca, ele afirma e reafirma, é preciso resistir em seus propósitos de vida. Resistir sempre.
Quanto a ele, diz apenas que não há o que temer. Chegou o seu tempo de reavaliação. Sabe que por um tempo ficará em silêncio. Se reciclando. Se fortalecendo. Adiante, outras ações se seguirão. É a vida que segue seu curso.

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