CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Zatoichi: quando o cinema criou a cegueira

Uma das séries de cinema japonês, que mais tempo ficou, com um público cativo, foi Zatoichi. Em torno de 26 filmes foram comercializados entre 1962 a 1989, tendo como protagonista Katsu Shintaro (forma japonesa de se pronunciar). Além destes, uma edição para a televisão, de 1974 a 1979, em cem episódios. Teria sido no papel de Zatoichi, que Katsu Shintaro se valeu: ninguém mais adequado do que ele.
Ao se tratar de Zatoichi, podemos falar a respeito do personagem e a sua construção arquetípica: cego, errante, jogador, massagista, marginal e espadachim. Como espadachim ele se torna justiceiro num mundo subterrâneo, formado por yakuza, ele próprio se considera um, samurais errantes, conhecidos por ronin, prostitutas, artista mambembe, crianças, jogadores de dado etc. Só para enumerar alguns. Neste elenco entram, inclusive, os funcionários corruptos, frequentadores de bordeis e receptores de dinheiros tirados dos mais fracos. É do fim da era Edo – que se estendeu de 1603 a 1867 – que se trata.
Ficou para trás o poder do shogun Tokugawa, enquanto mudanças ocorriam de forma acelerada, em que o país se viu na iminência de modernizar-se. A população rural vai decrescendo em função de uma concentração urbana, mais parecidos a vilas, nas adjacências das rodovias. Existem os camelôs viajantes, que instalam suas barracas nas entradas das vielas, antigos portais, e também na zona pública. É quando os bandos yakuza exploram os camelôs, cobrando uma taxa pelo uso do local. Se não colabora, são expulsos, cujo domínio pertence a um determinado bando. Quando um bando perde poder, vem outro para exercer o seu direito sobre o espaço.
Assim se encontra Zatoichi, que por ser cego, é capaz de trafegar neste universo e eliminar os que cruzam seu caminho. É um anma, um massagista, como outros cegos que à margem da sociedade têm de submeter-se a esta profissão. Mas Zatoichi é irônico diante de uma tempestade. Num dos filmes, no início, antes de anunciar o título, Zatoichi zomba e ri da situação: “Que poeira terrível”, admira-se, quando completa “se tivesse olhos estaria em apuros”.
Pelos caminhos estreitos Zatoichi perambula, apoiado na bengala de cego. Esta, nas mãos dele, se transforma em shikomi-zue, uma espada reta que oculta no interior da bengala. Ele teria aprendido o estilo Muraku de esgrima, também o iaido. A performance de Zatoichi é magnífica, o que demonstra o domínio da técnica por parte de Katsu Shintaro. O ator filho de um mestre de kabuki, que conhece a música, pois canta a trilha sonora dos filmes, igualmente toca shamisen e taiko. Sem a participação de Katsu, possivelmente Zatoichi seria um outro personagem talvez sem muito brilho. Zatoichi é divertido, inocente, irônico, ao mesmo tempo violento ao manejar o shikomi-zue. O uso desta arma difere ao de uma espada, pois o manejo é com apenas uma mão, e em cuja empunhadura o espadachim a segura de forma invertida. São golpes rápidos, no estilo iaido, muitas vezes imperceptíveis a olho nu.
O movimento de Zatoichi nos duelos é dramático, meio curvado em guarda, esperando a aproximação do oponente. Os golpes são transversais, provocando cortes, ou em estocadas para frente e para trás. Em momento algum mostra-se o ferimento, que a câmera oculta. Câmera parada em que Zatoichi se desloca rapidamente nas pernas tortas e os olhos fechados, golpeando em círculos, ao se ver cercado. O movimento dele é mais rápido do que a queda dos oponentes, que quase em câmera lenta, desmorona como um castelo de areia batida pelas ondas do mar.
Cegos tal como Zatoichi eram discriminados naquela sociedade. Ele próprio considerava-se alguém na mais baixa categoria dos cegos, conforme a guilda to-do-za. Zato pode ser entendido também como sendo qualquer cego na gíria japonesa. Ainda assim, Zatoichi não era um resignado ao mundo que o negara, mantinha-se marginal para ajudar outros marginais daquela sociedade: os desvalidos, as mulheres e os inocentes. Fazia massagens em fregueses, mas o que mais lhe rendia eram nas casas de jogo. Aquele em que o apostador de dados lança em altos brados cho ou han. Se os três dados caiam de um lado em que a soma era ímpar, equivalia a han. Se os que enxergavam davam resultados apenas na probabilidade, par ou ímpar, Zatoichi tinha os olhos velados, e assim outros sentidos estavam em evidência. Tinha o tato, mas era na audição que ele obtinha resultado satisfatório. As orelhas de Zatoichi parecem vibrar, como antenas, semelhantes aos morcegos que não enxergam na claridade. Com este domínio, Zatoichi podia prever o resultado, se sho ou han. Igualmente, pela audição, ele ouvia o deslocamento dos adversários durante as contendas. Habilidoso no iai, Zatoichi saca o shikomi-zue a curta distância, assim quanto mais encurralado, estará melhor o seu desempenho.
A saga de Zatoichi desvela uma história dos marginais, que entre eles criou-se um código de conduta, que ao final do Período Edo, ainda perdurava grande preconceito. O cego não escapava à regra, tal qual os lunáticos e a classe dos intocáveis – eta. Tidos como desprezíveis, mentalmente desequilibrados e sexualmente perigosos. Assim, Zatoichi seria um anti-herói, mas com uma profunda humanidade. Tratava-se de um Japão ainda na fase da inocência.

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