CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Viagem à alma humana

O romance Kokoro, de Natsume Soseki, publicado em 1914, virou filme de 1955, dirigido por Kon Ichikawa e distribuído pela Nikkatsu. Palavra de difícil tradução, Kokoro muitas vezes é forçosamente traduzido apenas por Coração. Os ingleses dizem Heart e os franceses Coeur, como que isso fosse suficiente. É nesta tentativa frustrada que apreciamos a adaptação para o cinema, o que originalmente seria lido no silêncio reflexivo dos leitores solitários. A leitura produz imagens variadas, o que no cinema apenas dependemos da lente do operador da câmera.
Seria um grande desafio como filmar o coração dos homens, mais precisamente o kokoro, da maneira conhecido pelos japoneses. Enquanto coração à maneira ocidental tem a ver com sentimentos de piedade, complacência, de romantismo, ou ainda um sentimentalismo exagerado, para os japoneses é a subjetividade mais profunda ancorada em valores culturais, morais, de dever e obrigações em relação ao grupo. Possivelmente, seja este uma das formas de kokoro ser interpretado, como demonstra Natsume Soseki. No caso, em particular, o kokoro pode ser pensado somente pela ótica japonesa, sendo este algo inerente àquele povo.
Assim, penetrar no kokoro é desvendar um universo complexo, transmitido através da tradição e dos costumes. Seria então uma idiossincrasia. O filme conta o comportamento estranho de Sensei, desta forma é chamado os professores pelos seus pupilos. Naquela sociedade sempre existe o sensei e, consequentemente, aqueles que relacionam com o mestre. Mas houve uma época em que dois amigos, que estudam na mesma universidade, buscam realizar as suas necessidades conforme as exigências morais em que acreditam. Falo do filme.
Natsume Soseki escreveu o romance dois anos depois do falecimento do Imperador Meiji, acontecido em 1912. Este fato deve ter abalado os ânimos dos japoneses. O seu governo, iniciado em 1867, foi o primeiro em que os populares puderam participar, numa espécie de culto ao imperador, algo sagrado, que dirigia os seus súditos e impunha respeito aos países vizinhos em guerra. De alguma forma, este romance de Natsume Soseki foca uma inquietação da alma humana em que se busca um sentimento para a própria existência. No próprio filme, numa das cenas, a tônica da narrativa é o momento em que o Imperador Meiji deixa o palácio para ser conduzido até o local a ser inumado. Uma fogueira arde num pedestal, enquanto isso, por onde deverá passar o cortejo fúnebre as pessoas se prostram em reverência. Ajoelhados, com o corpo inclinado, temem levantar os olhos, seria este um sinal de desrespeito.
No momento em que é anunciado a morte do Imperador, o seu fiel servidor, o Conde Nogi Maresuke, comete suicídio a fim de acompanhá-lo. Seria ele um dos heróis durante a Guerra Russo-Japonesa. Existe um exagero nesta atitude. Tudo é muito exagerado, mas se trata justamente no kokoro dos japoneses de então e diante daquela situação de desconforto. O desconforto é o alimento do kokoro dos dois amigos. Diretamente nada tem a ver com a morte do Imperador. Se a atitude de verdade do Conde Nogi era seguir o seu kokoro e submeter-se a auto-imolação, qual seria o motivo de inquietação daqueles jovens. Principalmente de Kaji.
Fica a grande incógnita, qual seria a razão de Kaji continuar vivendo se não encontrava um motivo maior para viver, uma espécie de um ideal, alguma revelação estética ou mística que pudesse lhe dar sustentação. Não se trata ainda do Japão moderno, pelo contrário, ainda se encontra em fase de transição em que valores dominantes de uma cultura confucionista e hierarquizada fazia parte da mente de seus habitantes. Tinha uma base menos material e utilitária e animado por sentimentos de lealdade e obediência aos padrões da formalidade social e do espírito. Atormentado por tais dilemas, o fim não poderia ser mais evidente: o suicídio. Situação compartilhada também, mais tarde pelo Sensei.
Este universo complexo do kokoro, levado ao cinema e explorado pelas imagens de Kon Ichikawa torna a narrativa menos densa, cujas palavras dão lugar a posições de câmeras bastante originais. Os dois amigos caminham pelas estreitas ruelas, de casas de paredes de madeira, cuja beleza maior estaria no telhado. São os telhados os detalhes que ornam em primeiro plano um fundo em que duas silhuetas caminham ao som da madeira dos guetas (tamancos) arrastando pelo chão. Diante da câmera parada as pessoas caminham, mostrando uma cidade que se movimenta, independente da vontade da câmera em se locomover. É uma atitude de contemplação, que apenas assiste, como os nossos olhos, observando sem fazer julgamentos.
A literatura diz a respeito a alma humana, tocando na parte profunda do desconhecido, que se oculta, que se aflora, como uma bola perdida num oceano de sensações. Nada é bom, nem mal, apenas é aquilo que se apresenta. Entender a alma humana dá sentido à nossa própria existência, distante da ideias e determinadas ideologias impossíveis. A realização da matéria é a derrota do espírito, sendo a realização do espírito a derrota da matéria, li certa vez em Teoria do Romance de Georg Lukács. Ao invés de ocultar, podemos entender o kokoro em nossa auto- reflexão. Recuperar o kokoro é recuperar a nós mesmos e deixar de ser os outros.

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