CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Um policial de Seicho Matsumoto em tela

Produzido em 1957, Harikomi, do original de Seicho Matsumoto, foi comercializado no ano seguinte. Quanto ao título, podemos traduzir por “De olho colado” ou mais livremente por “Sem perder a vista”, dirigido por Yoshitaro Nomura, com adaptação de Shinobu Hashimoto, com distribuição da Shochiku. Um dos destaques é o desempenho de Hideko Takamine, no papel de Sadako Yokogawa. Figura importante no cinema japonês, Hideko, ao lado de Setsuko Hara, construiu uma forma de atuar, que servia de modelo à maneira do feminino oriental. Muitas vezes em papeis ousados, que poderia ferir os costumes tradicionais.
Produzido em preto e branco, Harikomi é um suspense que cria tensão e uma curiosidade na investigação policial. Dois eram os policiais, Takao Yuki e Yuji Shimooka, enviados pela Polícia Metropolitana de Tóquio a distante província de Saga, na ilha de Kyushu. De abertura, a filmagem consta da viagem tumultuada da Estação de Tóquio até uma vila em Saga, num trem de linha em que os passageiros, entre eles, os dois policiais, têm que viajar sentado no corredor, pois não tinham passagem marcada.
A viagem em si, podia servir de propaganda da companhia de trem, antes da inauguração dos modernos trem balas, conhecidas por Shinkansen. Estas novidades do Japão moderno só vão acontecer em 1964, quando o Shinkansen é inaugurado, bem como acontece as Olimpíadas do Japão. Mas o filme acontece em 1958, num Japão do pós-guerra, da reconstrução do país, que quer esquecer dos horrores do sofrimento e carência. É deste período que o filme acontece, num misto de antigo e intimista. Os policiais se apresentam muitas vezes com camiseta, como nas cenas de trem, também no quarto que alugam de uma hospedaria em Saga.
Isso faz com que a público de cinema possa se sentir envolvido na trama, que através dos olhos dos dois atores, pela fresta de uma janela possam investigar os acontecimentos da casa de Sadako Yokogawa, uma antiga namorada do suposto assassino Kyushi Ishii, em Meguro, bairro de Tóquio. É uma suposição de que Ishii possa procurar Sadako, em lugar tão longevo. A única coisa que podem fazer é descobrir a intimidade de Sadako. O clima é sempre quente, com as toalhas brancas enxugando o suor dos rostos. Pelas ruas um vendedor de kingyo, os peixinhos dourados, canta molemente “kingyokingyo…”, tornando o calor suportável. É bastante simbólico.
Os protagonistas sempre usam roupas ocidentais, adaptando-se aos tempos de mudança, quando as mulheres podem desfilar com vestidos que marcam o corpo, suas cinturas finas e desnudam os braços. Nada muito comum no período da guerra ou antes dele. É num destes vestidos que se apresenta Sadako, com a sua beleza tipicamente oriental, discreta e submissa ao marido. Esta submissão pode ser mais uma fachada, que pode conduzir a uma má interpretação. Como uma mulher casada poderia estar se encontrando com um antigo namorado? Isso não se tratava de uma possibilidade, diante da investigação policial. Haveria um momento que isso poderia ser comprovado e o assassino preso. O próprio policial Tadao Yuki duvida de que a bela Sadako tenha algo negativo em sua vida passada.
Todos os dias, Yuki assiste pela fresta o marido de Sadako sair para o trabalho. Antes lhe dá uma nota de dinheiro para as compras no valor de 100 yenes. Muito pouco, ainda que se trate de 1958. Ela casara-se com homem bem mais velho e o casal tem dois filhos. Poderia se suspeitar de que Sadako teria motivos suficientes para suportar aquela situação. Não se mostrava feliz, por isso, a desconfiança. Cada vez mais, a desconfiança aumentava.
A câmera do diretor Yoshitaro Nomura utiliza-se da câmera parada, recurso também adotado por outros, provocando uma visão mais ampla em que os personagens conversam, atravessam diante da câmera, como que o público tivesse por trás das lentes. Algumas cenas exteriores são longas, com música de fundo, em que os acontecimentos do cotidiano se confundem com a intimidade de cada um. Não sabemos da intimidade dos outros, apenas dos personagens, que o público tornou testemunha, em suas dificuldades, em seu sofrimento.
Mostra uma cena de uma casa de banhos, um sentô, em que os usuários se despem logo na entrada, depositando suas roupas numa cesta. Tamanha intimidade seria possível ao se visitar um sentô. Mas isso não se dá no cinema. Os atores não aparecem totalmente despidos, preservando-lhes uma intimidade parcial em se tratando do cinema, em que um público estaria apenas assistindo a cena. Esta intimidade também é de que alguma coisa devia ser oculto num filme policial. O criminoso ainda não mostrou as graças de sua aparição em se encontrar com o seu grande amor.
Havia filmes policias na época, produzidos nos Estados Unidos, os do tipo noir, bastante populares e em forma de folhetim. Este filme não é do tipo americano, mas poderia se aproveitar da forma em que os americanos conquistaram o seu público. Mais tarde, a grande bilheteria do cinema japonês com o gênero policial vai ser Suna no otsuwa, literalmente “Tigela de areia”, na direção do mesmo Yoshitaro Nomura, do romance de Seicho Matsumoto. Este último é de 1974.

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