CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O templo do demônio, de Mizumi Kenji

Com direção de Mizumi Kenji, Oni sumu yakata (lançado internacionalmente como The Devil’s Temple), de 1969, tem como cenário o Japão antigo, bastante remoto, do fim do clã Fujiwara e ascensão da Família Heike. É o momento também que a classe guerreira dos samurais ganha proeminência, dominando o campo político. Estamos em torno do século XII. Por isso, as vestes também remetem a esta época. Existe uma beleza bastante singular, de origem palaciana e de cores discretas e pálidas.
Conhecido também pelo cinema chanbará, como era chamado os trabalhos que remetiam ao período mais recente, habitado por aventureiros de espada, ao final do período Edo (1867), como Zatoichi, o cego e justiceiro das causas perdidas, Mizumi Kenji exercita o seu talento num período pouco comum no cinema. Neste trabalho, poderia se dizer que os papeis principais concentram-se em quatro atores apenas: um assassino e ladrão, duas mulheres que disputam o amor deste e um monge. A impressão é que existiria no papel de Katsu Shintaro, o do fora da lei, conhecido por Mumyo no Taro, como sendo o centro daquela trama.
Entretanto, não demora muito, para que Aizen, no papel de Aratama Michiyo, ganhe proeminência. Enquanto Mumyo no Taro desempenha a função de mostrar a selvageria nos movimentos de luta, principalmente de ataque e saque, a maquilagem de Katsu Shintaro, com seu rosto demoníaco, olhos que saltam, um destempero nas atitudes, mostra-se submisso diante do poder sedutor de Aizen.
O inverso de tudo isso encontra-se Kaede, desempenha Takamine Hideko, com seus gestos aristocráticos, quase uma atriz do teatro Noh, cujo rosto é mais expressivo do que qualquer máscara de madeira. É um rosto que tenta ocultar as emoções, a humilhação diante de Aizen, que lhe rouba o marido. Tem ela por fito reconquistar Mumyo no Taro, um revoltado que após ter sido derrotado, desiludido com a vida, torna-se num ladrão. Retira-se totalmente do mundo ao habitar um templo abandonado. Como que enfeitiçado por Aizen, vive da luxúria e alimenta-se do assalto nas aldeias e aves caçadas nas montanhas.
Mas o ponto central da tensão entre eles ganha significância na chegada de um monge vindo do Monte Koya. É o monge que chamam apenas de Shonin. Mas vindo daquele mosteiro, poderia ser considerado alguém especial, de práticas ascéticas e esotéricas. O tema do demônio ganha relevância, quando se coloca em questão termos como a maldade, a corrupção, a sensualidade, o apego e, no contraponto, a libertação através dos ensinamentos de Buda.
Poderia ser outro filme qualquer, de temática budista; a respeito podemos nos lembrar de Samsara, de 2002, com orçamento europeu e cenário tibetano. Fez muitos chorarem na época. Existe, de fato, uma redenção no final. O caso de Oni sumu yakata, a narrativa é mais complexa e coloca em dúvida a própria salvação, o renascimento na Terra Pura. Assim, o monge é colocado à prova.
Será o monge suficientemente treinado ou desapegado diante de dilemas comuns aos mortais, quando o discurso se torna fora de contexto e a situação real de confronto acontece. Numa cadeia de relações ininterruptas, o monge também não está isento das amarras do karma ruim, de um passado que ainda persiste em causar sofrimento. O demônio poderia ser Mumyo no Taro, em certo sentido, mas também Aizen. Inclusive Kaede, como afirma o monge. O demônio seria uma condição da alma humana, que se concretiza quando os sentimentos negativos tornam predominantes.
O cinema de Mizumi Kenji neste contou com a colaboração de Kaneto Shindo (diretor de cinema) e de Tanizaki Jun’Ichiro (escritor). Tema que lembra o teatro Noh, também o Kabuki, este último principalmente nas maneiras espalhafatosas de Mumyo no Taro. Uma cena é bastante bela e pulsante. Estão diante de um altar, no lado direito a imagem de Fudô Myo, mas diante deste Kaede, do lado esquerdo o Buda Dai Nichi Nyorai, com Aizen diante dele. Não existe uma imagem central, mas quem ocupa este lugar é justamente o ladrão Mumyo no Taro. Enquanto acontece o diálogo entre as duas mulheres, disputando o amor de Taro, este nada faz, apenas concorda em tudo com Aizen.
Apesar do filme ser colorido, as cenas são escuras, inclusive as do exterior. Isso remete a um estado de alma perdido nas sombras da ilusão, em que o sol resiste em aparecer. Supostamente haveria muitas árvores, capazes de ocultar ou revelar sentimentos obscuros que ninguém poderá negar. Filmar o que se encontra na alma foi o desafio deste diretor. Mais do que resolver os nossos próprios dilemas, fica a dúvida em relação do que seja o mal, do que seja o bem. Esta contradição, no entanto, provoca uma náusea naqueles que vivem na dicotomia. Num processo transformador, inclusive, o pior deles também merece a salvação. Isso acontece quando alguém consegue ver a verdade em meio a todas as mazelas da paixão humana.

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