CANTO DO BACURI > Francisco Handa: No tempo da Montanha Mágica

Foi numa aula de história contemporânea, do curso de história, que o professor disse: “Se quiserem entender a Alemanha, devem ler A Montanha Mágica, de Thomas Mann”. Todos as sugestões dos professores serviam de inspiração para o então jovem estudante de história. Demorou algum tempo para comprar o livro citado. Isso aconteceu na Feira de Livros da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP, a uns vinte anos atrás. Preço pela metade, 30 reais.
O primeiro passo tinha sido dado, obter o livro, o segundo seria lê-lo, as 736 páginas. Não apenas lê-lo, mas mergulhar naquele universo, que não poderia se estender por meses. No final de ano, numa casa do Guarujá, o livro foi devidamente lido em quatro dias. Refiro-me do primeiro impacto, a densa obra de Mann deveria ser amadurecida em meus neurônios. Recentemente, novamente, A Montanha Mágica passou a incomodar as minhas imperfeições de entendimento.
O que A Montanha Mágica explicava sobre a Alemanha, naqueles dias derradeiros do final da Primeira Guerra e o prenúncio da Segunda Guerra, mostrava um país em estado de enfermidade. A Alemanha estava doente. A montanha que faz referência Thomas Mann localiza-se na cidade de Davos, nos Alpes Suiços, onde ficava um imenso hospital para os tuberculosos. Acreditava-se que os ares alpinos eram benéficos para os que sofriam do mal daquele mal. Numa alegoria, toda a Alemanha sucumbia daquele mal, os que podiam, internar-se no hospital, uma espécie de um grande hotel, um balneário, enquanto a doença minava o corpo e a mente de cada interno.
Este foi um dos livros queimados pela Juventude Hitlerista em 1933, em inúmeras cidades da Alemanha. Mas outros autores também fizeram parte da lista do ódio pan-germânico, como Stefan Zweig, Sigmund Freud e Erich Maria Remarque. Nenhum dos livros escritos por eles agradavam os adeptos do nazismo, pelo teor humanista, pacifista e decadente da Alemanha. A queima de livros foi mostrado também por François Truffaut, em Fahrenheit 451, de 1966, do original de Ray Bradbury.
Que mal teria este livro, para ser queimado?
A situação dos personagens de A Montanha Mágica, pode ser aplicado em alguns momentos de nossa história, inclusive a mais recente. Hans Castorp é um homem comum da classe média, que deixa a Alemanha a fim de visitar o seu primo Joachim Ziemssen, internado no hospital dos Alpes. Uma simples visita foi capaz de revelar de que a doença também contaminara a Hans. De fato, todos estão doentes, os internados, também os que estão fora do internato. Desta forma, Hans resolve permanecer no hospital e integrar-se aos demais doentes. Alguns, como Hans reconhecem estar doentes, outros igualmente doentes, estão soltos na Alemanha. A má governança da República de Weimer, dos sociais democratas, abrem caminho para Hitler ascender ao poder como chanceler em 1933, no mesmo ano da queima dos livros.
Mas os enfermos dos Alpes Suiços nem de longe se assemelham com os enfermos que acreditam estar saudáveis, mais do que isso, inspirados pela febre do nacionalismo alemão. Em verdade, o hospital pode ser uma Alemanha visto numa lente que ao invés de aumentar, diminui sensivelmente. Padecem da enfermidade do corpo, enquanto a mente funciona muito bem. Muitos deles são incrivelmente inteligentes. De um lado encontra-se Lodovico Settembrini, um italiano com ideias renascentistas, a ilustração no seu ponto mais alto. Mas também lá se encontra o jesuíta conservador, de colocações brilhantes, Leo Nafta. Assim, se produz um combate de cavalheiros entre pontos de vista diferentes, igualmente sedutores. Durante a leitura, podemos tomar partido de um ou de outro, pois ambos são persuasivos em suas colocações.
Num nível não tão elevado, também o embate se faz no Brasil presente, colocando liberais e conservadores, radicais de esquerda e intolerantes de direita, numa ambiguidade em que liberais são conservadores disfarçados, tão diferentes do liberalismo propagado por Thomas Mann. O liberal radical, que defende seu ponto de vista liberal, consegue conviver e dialogar com todas as formas de discursos.
No mundo de Thomas Mann, enquanto as diferenças se colocam no campo das discussões, cada lado defendendo pontos de vista pessoais e valorativos, uma coisa é certa: a morte. Todos estão doentes, ricos e pobres, e neste momento as diferenças são detalhes de uma vida que vai se esvaindo, mas ainda as ilusões permanecem como apegos à própria vaidade. O que faz os homens iguais é a própria ilusão, não importa se de um lado, se é do outro. Cada lado é o espelho do outro, sem que um não viva sem o outro.
Este ponto de vista não poderia ter agradado os nacionais totalitaristas, assim Thomas Mann é obrigado a deixar a Alemanha. Durante o exílio vai viver nos Estados Unidos. Se quiserem arriscar com boa literatura, de fundo psicológico, tentem A Montanha Mágica.

Comentários
Loading...