CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Ilha Nua de Kaneto Shindo

Alguma coisa acontece entre os apreciadoresde cinema após assistir Hadaka no Shima (Ilha Nua), de 1960 premiado no 2o.Festival Internacional de Filme de Moscou. Entre os jurados estava LuchinoVisconti. Quando se diz, alguma coisa acontece, refere-se ao senso de estética das imagens, de câmeras paradas, em grandes angulares, em que os personagens caminham e contam a história através da narrativa cinematográfica. Nenhum diálogo. Isso é provocador. Um desafio de Kaneto em fazer cinema sem nenhuma fala. Apenas imagens e uma trilha sonora que se repete, por si só, um diálogo musical acompanhado de ruidos das ondas e um fundo em que a natureza tem um papel preponderante. Seria esta também um personagem.
Quando passou em São Paulo, com um atraso de nove anos, foi fora do circuito dos cinemas frequentado pelos japoneses, estes concentrados no Bairro da Liberdade. Ilha Nua ficou em cartaz por um mês, no cine Scala. Diz Alexandre Kishimoto, em Cinema Japonês na Liberdade (2013, Estação Liberdade), que não teria agradado o público médio. Entretanto, teria sido um prato cheio para a crítica nos jornais, principalmente Folha de São Paulo.
Parece estranho um filme isento de diálogo. Não precisava disso. Naquela ilha nua, uma família vive à custa de uma cultura extensiva, como teria dito posteriormente Shindo, de batata doce. Trata-se de um arquipélago no Mar Interno Seto, sendo que numa daquelas ilhas, terreno acidentadoe arenoso, uma família vive. Ela é formado por um casal de meia idade, o marido mais velho, e dois filhos em torno dos dez anos. Sob o céu que parece maior ainda, desponta a cabeça do homem, usando um sombreiro, que movimenta um remo posto na popa do barco. Para a direita, para a esquerda o barco vai deslizando adiante. A trilha sonora, de Hikaru Hayashi, impressiona sob um céu imenso, entrecortado por ilhas que se espalham adiante.
A sina daquele casal é carregar água de um corrego, de uma ilha vizinha para irrigar a sua cultura. Repetidamente, aquilo acontece: dois toneis suspensos numa vara, levada nos ombros em diagonal para melhor equilíbrio. No barco, às vezes é o homem que conduz, depois a mulher, cuja câmera fecha no horizontal, revelando um rosto sofrido, os olhos finos do homem, quase fechados devido a claridade do sol a refletir no mar. Depois o momento mais terrivel, subir uma ladeira acima, calcando os pés nos pedregulhos, tomando apuro para não despencar. Assemelha-se ao mito de Sísifo, empurrando a rocha acima do monte, que depois rola abaixo. Novamente, conforme o mito, deve empurrar a mesma rocha sem que algum resultado seja obtido. Para aqueles dois, o resultado é chegar ao topo e irrigar ramo por ramo aquelas plantas.
Numa das vezes, a mulher ao subir o morro hesita por momentos, deixa cair um dos tonéis. O homem chega desconcertado e age com violência, para que ela não cometa o mesmo erro. Uma cena cruel. Será aquela cena realmente cruel, ou a vida a que tem de submeter-se é cruel, bem como a natureza à sua volta. Portanto, trata-se da ilha nua. Mas nenhuma crueldade é produzida pela natureza, que age como sempre foi, deixando-se dominar pelo homem, também voltando-se contra ele. Sem emoção alguma. Assim passam os dias, com os filhos crescendo. Estes também têm as suas obrigações, como preparar o banho de ofurô. Ao entardecer, antes mesmo da lua surgir, é hora do banho. Num tambor de óleo, serve este de ofurô. Primeiro os meninos entram, depois o pai, finalmente a mãe. Apesar do pai ser enérgico, mostra-se carinhoso com os filhos, brincando e abraçando. Com todas as dificuldades, era uma família feliz
Assim vem o outono, quando acontece os festivais, depois o inverno, em que as senhoras idosas cantam e dançam, enquanto os mais jovens apreciam, tempo de arrancar os troncos. Sem maquinário algum, apenas com a força dos braços e das correntes. Não existe nenhum animal de tração. Tudo é conseguido pela tração humana, dos braços e pernas, de um homem e uma mulher, em trabalhos iguais. Não se deixam vencer, apenas seguem o tempo cíclico das estações em sua transitoriedade.
Ao chegar a primavera, as cerejeiras preenchem os galhos desnudos, e os cultivadores da terra podem recolher o fruto de seus trabalhos. Ensacam a mercadoria e levam para a ilha principal para a comercialização. Agora podem usufruir daquele trabalho árduo, que parece ter compensado. Um peixe conseguido pelos filhos é levado para a cidade, assim vendido para um comerciante, têm desta forma uma soma maior para exageros. Os pais podem levar os filhos num restaurante e pagar-lhes uma cumbuca de udon. Passeiam também num teleférico, quando do alto vislumbram a paisagem magnífica da cidade, com seus telhados e templos.
Tudo segue o seu ciclo, que tem um começo e um fim. Depois da bonanza, todos retomam a rotina de antes. No verão, um acontecimento muda por momentos a lida diária. Um dos filhos acometido de febre não espera o médico chegar. Num barco os amigos de classe do menino, acompanhado da professora e do sacerdote budista, aportam na ilha. Sobem o morro de sempre, a trilha sonora de sempre, em que culmina na despedida do menino. Todos os amigos estão lá, não o abandonaram neste momento tão crucial. Ao lado do campo em que será feita a cremação, que não mostra no filme, está a a cultura de batata-doce. A vida, ao lado da morte, num sucedâneo de acontecimentos da semeadura, irrigação, fertilização e corte.

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