CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A maldade em o “Senhor das Moscas”

Nunca o tema da maldade foi exposto de forma tão visceral do que em “Senhor das Moscas”, de autoria de Willliam Golding, um escritor inglês, publicado em 1954, mais tarde transformado em filme, de 1963 e outro em 1990. Não pude ainda ler o romance, mas assisti por mais de uma vez ao filme. Este autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1983 por esta obra.
A situação vivida pelos atores de Senhor das Moscas, repete a um modelo, outras vezes postas na vertente literária, que pode ser visto também em Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, escrito em 1719, no qual o protagonista, o aventureiro denominado Robinson Crusoé depara-se numa insólita experiência de sobrevivência numa ilha, na região do Caribe, próximo à ilha de Trinidad. A situação muda quando naquela ilha outros náufragos chegam, como o nativo Friday (Sexta-Feira) depois alguns portugueses e também espanhóis. Claro, o domínio e administração deve ser de Crusoé. Trata-se mais de um modelo político, que enaltece a escravidão, no caso de Friday, e o distanciamento dos estrangeiros ibéricos.
Num outro caso, existe o romance A Ilha Misteriosa, de Jules Verne, escrito em 1874, possivelmente inspirado em Daniel Defoe. Neste, alguns soldados da cavalaria do norte, durante a Guerra da Secessão, fogem do campo de prisioneiros, e conseguindo desembarcar numa ilha qualquer, distanciado da civilização. Entre os fugitivos está um oficial da cavalaria do sul. Entretanto, as animosidades entre o norte e sul acabam quando percebem que devem unir-se para sobreviver. No caso, Jules Verne aposta numa versão romântica em que a solidariedade e o companheirismo é o único motor que deve prevalecer quando a ajuda mútua se torna necessária. Existe uma influência das ideias de Rousseau, que defendia a bondade entre os homens.
Não é o que acontece em Senhor das Moscas. Nada de romantismo. Numa ilha, durante um desastre aéreo, meninos são arrastados e assim se salvam. Em torno de dez meninos de uma escola militar inglesa, cujo único adulto não consegue sobreviver. Terão que definir quem será o líder. A responsabilidade pelo cargo coube a Ralph, que ostenta o título de coronel. Em verdade são crianças, que passam dos treze anos de idade. Ele é escolhido por ter a patente maior.
Não apenas por ter capacidade de liderança, Ralph se apresenta como um democrata, quer dialogar, mostrar um jogo em que todos possam ter a palavra. Portanto, não será dele a palavra final. Arrumam uma carapaça de um caracol, que ao ser soprado emite um som. Este é o sinal de que a reunião deve começar. Ao contrário deste, Jack quer medir forças com Ralph. No começo, numa simulação de uma luta, em que Ralph com o braço na tipoia não se deixa vencer pelo oponente. Esta situação iria mudar mais tarde, quando os acontecimentos apontariam para uma outra direção.
Se no começo, os meninos usavam os seus uniformes, ou parte deles, com o tempo vai ser abandonado, restando apenas um calção. Só isso. Nenhuma ajuda aconteceu ainda e diante da diminuição da esperança de serem resgatados, restam-lhe apenas retirar de si mesmos a força para continuarem vivos. O grupo se divide, de um lado, os que ainda apoiavam Ralph, de outro, Jack, que acaba assumindo um papel de destaque, com extrema crueldade em relação ao meio ambiente. O instinto fala mais alto do que qualquer noção de civilidade. Passam a caçar porcos selvagens, com o uso de lanças. Como os nativos selvagens mostrados no cinema americano, pintam as caras, gritam, saltam e correm atrás de suas caças. Por isso, podem saciar a suas fomes.
O mesmo não acontece com o grupo de Ralph. Estes acabam caindo no desânimo, enquanto mostram-se elegantes em seus modos, respeitam a lei e o diálogo. Por isso, tende a esvaziar-se. Sobram apenas Ralph e Porquinho, este um menino inteligente, mas medroso, o ridicularizado pelos demais. Nisso, o grupo de Jack alimentando a selvageria, depara-se com a existência de um inimigo maior, totalmente desconhecido. Este vive numa caverna. A fim de agradar este, oferecem a cabeça de um porco. Daí no nome, Senhor das Moscas, uma alusão a Belzebu.
Nenhum monstro havia lá, muito menos Belzebu. A maldade se existia estava na alma daquelas crianças. Após o sacrifício do porco, não muito difícil começar a perseguição aos seus próprios membros. Nada existe mais de civilizatório, que ao invés disso, deixam queimar o fogo da paixão desenfreada, em que a violência contra os mais fracos e indefesos se torna o motivo maior para a sobrevivência. Será a vez, um dia de Ralph ser perseguido, o representante da democracia, do diálogo, tendo por antagonista Jack, algo de demoníaco, o desalmado fascista que age sob o domínio da maldade, inerente ao homem, mas nele totalmente desimpedido.
O que nos mostra, através desta experiência é de que as balas falam mais alto do que o bom senso, pois deixou de existir o diálogo. O debate é possível entre diferentes, mas deixa de existir quando a diferença se torna motivo para o ódio. Em nenhum instante, o ódio deve ser banalizado. Se Belzebu existe, está num lugar não muito distante. Sabedor disso, que ele nunca se torne hegemônico.

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