CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A Laranja Mecânica ainda assombra

Ainda que tardio, tive a oportunidade de assistir a Laranja Mecânica, um filme antigo, ou talvez nem tanto, de 1972, do diretor Stanley Kubrick. Sabia das cenas de violência, que me parecia algo gratuito, em um mundo futuro numa espécie de distopia. O termo distopia, por si, me parece desconhecido, algo incômodo que preferimos evitar. Também tenho o livro, cujo filme teria como original, de autoria de Anthony Burgess, escrito em 1962. A produção é anglo-americana, da Warner Bros.
Trata-se de Londres, também cenário numa outra distopia, a de George Orwell, denominado 1984. Quando se trata de um mundo por vir, em se tratando de uma tragédia, algo possível de acontecer, é o que se chama justamente distopia, o inverso da utopia. Assim, Stanley Kubrick vai revelando um mundo sinistro, de delinquentes juvenis, adeptos da violência de todas as formas possíveis, contra um sistema aparentemente regular, mergulhado numa apatia em obediência às regras e normas.
O grupo de desregulados é formado por quatro rapazes, em idade escolar, que guardam algum tipo de revolta não revelada. Tendo por líder Alexander Del Large, os outros três submetem-se ao poder dele. É o chefe do bando, o mais violento destes, no papel de Malcolm MacDowell. Entretanto, um dia o seu poder é questionado pelos demais. Haverá um momento que ele poderá hesitar e, pela confiança exagerada, em si mesmo, ser destruído. Não demorará muito para que isso aconteça, sendo a traição um dos elementos de transformação social, para o bem e mal do grupo. Não são amigos, apenas cúmplices de suas sandices e descontrole de qualquer freio da auto censura.
Em outras épocas, poderiam ser membros da juventude hitlerista, mas em Londres não passam de delinquentes oriundos da classe média. Não havia imigrantes estrangeiros ainda nesta época. Toda maldade é possível, como espancar mendigos e bêbados, mas também roubam, violentam mulheres e humilham os mais desprotegidos. Atuam sempre em bando.
O termo “Laranja Mecânica” será entendido na segunda parte do filme. É o que nos interessa. A violência física é apenas uma faceta da sociedade. Existe uma outra, mais sutil, menos aparente, como um fio de navalha que corta sem exibir o instrumento que causa o ferimento. Preso após um delito, traído e abandonado pelos cúmplices, Alexander deve cumprir uma pena em regime fechado para a sua recuperação. A moral londrina acreditava de que os maus e desencaminhados podiam um dia retornar à vida comum a partir de medidas de enclausuramento e doutrinação.
Não se trata das prisões como as nossas, bem ao contrário, estabelecimentos fechados como os colégios internos, em que o preso terá todo o tempo livre em bibliotecas. Parece cínico esta situação. O que Alexander faz é ler a Bíblia e refletir a respeito. Não era bem a mente de um crente, interessado na salvação no outro mundo. Nem Alex é ingênuo o suficiente para acreditar nisso. Nada disso! Mas a atitude chega a impressionar o capelão. Claro, o que desejava Alex era sair da prisão, usando de todas as artimanhas para isso. Diz ao padre de que queria ser bom, colocando-se na fileira dos presos arrependidos.
Mas para ganhar a liberdade, ele teria que submeter-se a um tratamento psicológico de reeducação das atitudes. É o processo de se transformar na “laranja mecânica”, através da invasão de seu cérebro através de mensagens passadas através de filmes. São filmes com cenas violentas, semelhantes as que teria vivenciado anteriormente. Repetidamente são passados estes filmes, sem que os olhos possam fechar-se. Ao fundo a 9ª. Sinfonia de Beethoven, compositor de sua preferência. Num certo momento, ele cede, não concebe mais cenas violentas, tendo ao fundo Beethoven. Assim, a cura acontece. Se a cura acontece desta maneira, por outro, conforme afirma o capelão, “ele deixa de ser um malfeitor, mas deixa também de ser uma criatura capaz de escolhas morais”.
Numa sociedade de políticos interessados apenas em se eleger, querem resolver o problema social pelo caminho mais curto. Naquela Londres, transformando a mente dos maus em pessoas boas. Um tipo de psicologia se presta a este serviço, usado de maneira totalmente ideológica. Tão doente como Alex era toda a sociedade da década de 60, quando foi escrito o romance, também a década de 70, quando o filme foi lançado. Há uma certa ironia no filme de Kubrick, em que a violência é totalmente banalizada através dos mecanismos físicos, bem como mentais.
Lidar com a mente, é em si uma violência. A Laranja Mecânica é a visão externa totalmente linda, a laranja, e que no interior existe uma máquina, que controla a maneira de pensar e agir. Fora do filme alusivo, vivemos uma outra laranja mecânica, em que a nossa mente é burilada pela informação ideológica, no interesse de determinados setores. Quando polarizada, aquilo que não se adequa ao aceito é considerado o mal. Sempre o mal é o outro. Sempre o corrupto é o outro.
De malfeitor, Alex se transforma num homem bom, que está conforme o que deseja a sociedade. Isso não quer dizer que a sociedade esteja saudável. Existe pornografia em Londres, toda moral burguesa sendo ultrajada pelos próprios membros, os políticos, a polícia, os outros. De fato, Alex muda, não para o bem, mas para um mal vendido, comprado, negociado conforme os parâmetros aceitos socialmente.

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