ERIKA TAMURA: Bem-vinda à realidade

Como todos sabem, eu moro no Japão, e meus filhos no Brasil, por opção deles.
E hoje, conversando com a minha filha, ela estava triste e um pouco decepcionada, o motivo: Eleição do Grêmio Estudantil da escola dela.
Ela montou um grupo e se candidatou a uma chapa, elaborou as propostas e perdeu…
Isso a deixou chateada, pois como ela me disse, a outra chapa não tinha uma proposta concisa voltada aos estudos, e sim propostas totalmente fora da realidade no que se refere à educação. Um exemplo, adotar o uso de video games em salas de aula.
Melissa, minha filha, achou essa proposta absurda, afinal, ela estudou em escola japonesa até os 10 anos de idade. Disciplina é a palavra de ordem nas escolas japonesas, e por mais tecnológico que pensem que o Japão é, o uso de video game em sala de aula é totalmente inadmissível.
A proposta da Melissa era priorizar os estudos de uma forma com que a escola pudesse elevar o seu nível no ENEM e nas olimpíadas de matemática.
Mas infelizmente não conseguiu ser eleita.
E ela me relatou tudo isso no telefone, com voz triste e indignada, e eu respondi: “Bem-vinda à realidade, Melissa!”.
É isso, estão vendo toda essa bagunça política e administrativa no Brasil? Então, ela está nas raízes do povo brasileiro, que já desde criança não sabe elaborar um critério de avaliação para votar.
Tudo isso que acontece hoje no Brasil é reflexo do que o povo brasileiro imediatista acredita. É a política do “pão e circo” que manda nesse país.
Infelizmente a longo prazo, não é o caminho preferido do povo brasileiro para trilhar. E fico triste que a minha filha tenha percebido isso, ou não…
Por outro lado acho muito bom que ela tenha sentido na pele, como funcionam as coisas no Brasil. O que o povo valoriza, muitas vezes não é o melhor. E o que é o melhor, o povo não quer trilhar por esse caminho.
Mas o que me deixa muito satisfeita é a indignação da minha filha. Isso mostra que eu a eduquei corretamente. O que é certo é certo, independentemente se a maioria gosta ou não. Acredito que é essa minoria que faz parte do grupo dela, que futuramente pode fazer a diferença no mundo. O sucesso chega para poucos e só para quem estiver preparado. Quem pegar um atalho, pode até desfrutar do sucesso, mas pode ruir a qualquer hora, por pura falta de estrutura.
O conselho que eu dei para a minha filha é, acredite no seu ideal! O importante é não se corromper por conta da facilidade que a maioria impõe. O que você acredita é aquilo que você acha ético, e com certeza, merece que você e seu grupo, lute por isso!
Jamais, mas jamais mesmo, devemos deixar de acreditar nos nossos princípios e tentar a ascensão pelo caminho mais fácil, que lá na frente não é garantia de felicidade ou sucesso.
Não estou dizendo que o outro grupo da escola da minha filha, seja errado, mas possui propostas não condizentes com a realidade que se refere `a educação. Qual a finalidade de um grêmio estudantil? As propostas estão dentro do contexto?
O que eu falei para a minha filha, cabe a todo o contexto político atual do Brasil, se você não acredita no que foi proposto, não desista do que você acredita ser o ideal. Carregue a sua bandeira, sem precisar ofender ninguém, sem passar por cima de ninguém, usando ética e bom senso. O que é bom, vai ser perdurado, e o que não é, um dia cai por si só.
Não se pode ser imediatista, os resultados irão aparecer, e você não precisa ser conivente com uma situação que te desagrada.
O povo brasileiro, infelizmente, acha que a corrupção é um ato de políticos poderosos, e não é! Ela está no dia a dia, camuflada ou não, até mesmo em pequenos atos, e quando se mora fora do Brasil, conseguimos ver com mais clareza, o jeitinho brasileiro, pode ser visto como um defeito dos brasileiros, mas o povo brasileiro ainda não se deu conta disso.

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