‘Ampliação do programa dependerá do sucesso no primeiro ano’, diz deputado Mikio Shimoji

Se não era bem o que estavam imaginando, a palestra do deputado japonês Mikio Shimoji (Nippon Ishin no Kai), que falou sobre o novo sistema de visto para yonsei (descendentes de japoneses da quarta geração),  também não deve ter sido frustrante para os cerca de cem interessados que compareceram ao salão nobre do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), no bairro da Liberdade, em São Paulo, em plena domingo (5) à tarde. Com o tema “Panorama geral sobre o novo sistema para a entrada de yonseis no Japão”, a palestra fez parte das comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil e contou com apoio das cinco principais entidades nipo-brasileiras – Bunkyo, Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), Aliança Cultural Brasil-Japão e Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil – além do Ciate (Centro de Informações e Apoio ao Trabalhador no Exterior).

A introdução ficou a cargo do deputado federal Walter Ihoshi (PSD-SP), que assinou o manifesto das entidades nikkeis na tentativa de sensibiliar o governo japonês para a causa dos yonseis. Ihoshi disse que Mikio Shimoji é um “grande parceiro do Brasil e que através de sua voz no Parlamento japonês teve início um proceso importantissimo de debate e discussão e, finalmente, da autorização do visto para yonsei, que já estão possibilitados de adentrar no Japão desde o dia 1º de julho”.

O parlamentar, no entanto, disse que é solidário aos muitos – se não a maioria – dos yonseis,insatisfeitos com o programa que impõe, por exemplo, limite de idade – entre 18 e 30 anos – e exame de proficiência nível N4, além da figura do assistente de recepção – o chamado tutor – entre outros requisitos.

 

120 anos – “Talvez pudéssemos ter um limite um pouco mais flexível, quem sabe aumentando para 40 anos. A questão de não levar os filhos também gera uma preocupação muito grande para os yonseis”, disse o parlamentar, lembrando que “a expectativa inicial era que o visto pudesse ser concedido da mesma forma como é para os sanseis”. “Entendemos essa vontade, essa aspiração, mas também precisamos levar em consideração o tempo que o governo japonês levou para estudar essa matéria e o momento que o Japão vive”, ponderou Ihoshi, acrescentando que “o governo japonês se cercou de todos os cuidados para tomar essa decisão, que não é definitiva”.

Conhecido como defensor dos yonseis, Mikio Shimoji, que vem assumindo importantes cargos no governo japonês – foi ministro de Assuntos Internos e vice-ministro de Economia, Comércio e Industria, e vice-ministro do Desenvolvimento de Okinawa – pediu desculpas ao ser cobrado pela plateia por ter dito no ano passado, quando de sua passagem pelo mesmo Bunkyo, que pelo novo sistema poderiam ir pessoas de “120 anos”.

 

Cautela – Prometendo ser mais “prudente”, disse que a ideia é conduzir o programa com “bastante cautela”. Explicou, porém, que sua ampliação dependerá do sucesso que alcançar neste primeiro ano de vigência. “Temos como condição básica ter sucesso este ano para que o programa possa ser ampliado em 2019-2020. Para isso, estebelecemos como meta levar 4 mil yonseis  (não só do Brasil)através deste novo sistema”, afirmou Shimoji, destacando que, caso isso não ocorra, o programa poderá sofrer duras críticas no Japão.

Conforme apurou o Nikkey Shimbun, até esta quarta-feira, 8, o Consulado Geral do Japão em São Paulo ainda não havia  expedido nenhum visto deste novo sistema.

Shimoji reconhece que a concessão de visto para yonsei não foi, de fato, unanimidade em seu país. Ao contrário. “Admito que tivemos opiniões contrárias em permitir que os yonseis tenham o mesmo acesso que os sanseis”, disse, explicando que os principais obstáculos são a língua japonesa e o pouco interesse pela cultura.

Segundo ele, foram justamente essas “desvantagens” em relação aos sanseis, ou seja, a  capacidade de comunicação no idioma japonês aliada ao interesse “um pouco menor” em se aprofundar na cultura japonesa que motivou a criação do novo sistema de visto para os yonseis.

“Levei as opiniões colhidas dos senhores no ano passado e no dia 1º de julho deste ano foi dado início ao novo regime”, lembrou Shimoji, admitindo que está recebendo uma série de pedidos para melhorias deste sistema.

As principais reclamações referem-se ao limite de idade e a exigência do nível 4, além de não poder levar a família. Outra questão bastante relevante, como frisou o próprio Shimoji, é a figura do assistente de recepção de yonsei, que ainda não está muito bem definida.

 

Idade – Sobre a questão da idade, o deputado japonês disse estar ciente que há varias opiniões quanto à restrição, “porém, estamos convictos que podemos absorver um público razoavelmente grande de yonseis” mesmo com essa imposição. Shimoji faz uma ressalva. “O limite de 30 anos é no ato de se inscrever, portanto, a pessoa pode passar dos 30 anos durante sua estadia no Japão. Em relação às pessoas acima de 30 anos, por exemplo, com 40 anos mas que comprovodamente são da quarta geração, nós temos o preparo para avaliar essa possibilidade”. De acordo com o deputado, é importante que essas pessoas – acima de 40 anos e yonseis – se manifestem na página do Consulado Geral do Japão em São Paulo (cgjvisto@sp.mofa.go.jp).

“Daqui para frente, iniciado este novo sistema, se essa voz – de yonseis acima de 40 anos de idade – ganhar muita força, acredito que isso levará a nós do Japão termos que estudar uma nova abertura”, garantiu.

Quanto ao fato de o yonsei ficar longe da família, Shimoji explica que “também pensamos bastante nesse assunto”. A ideia, explica, é que o interessado vá sozinho e depois que conquistar estabilidade, leve seus familiares. “Existe essa possbilidade”, afirmou, acrescentando que “naturalmente nós não somos a favor da ideia de separar uma pessoa de sua família por cinco anos”. “Sendo ambos – marido e mulher – da quarta geração, o sistema permite que os dois viajem juntos. Se a esposa for de terceira geração, o sistema anterior permite que ela vá e permaneça no Japão mas se por ventura a esposa não for descendente não poderá ir através deste programa. É um tema que pretendemos estudar futuramente, para que o yonsei possa levar sua esposa que não é descendente”, disse.

 

Experiência amarga – “Quando desenvolvemos este novo sistema, tivemos essa preocupação de que sozinho ele já sentirá dificuldades de adaptação e, com cônjuge, seria uma agravante. Achamos mais prudente iniciar desta forma: levando a pessoa interessada sozinha para que ele se esforce para  dominar a língua e se adapte aos costumes japoneses para depois chamar seu cônjuge”, explicou, justificando que “o motivo pelo qual estabelecemos essa exigência do N4 é baseado na experiência, amarga, com os sanseis, que foram para o Japão sem ter nenhum conhecimento da língua japonesa e se concentraram apenas no trabalho, não tendo tempo para outras coisas. “Conhecemos muitos casos de sanseis que ficaram muito isolados por não terem capacidade de comunicação e não quremos repetir essa experiência com os yonseis”, diz Shimoji, afirmando que em relação aos descendentes de quarta geração “temos vontade de formar estes yonseis como um elo com o Brasil”. “Para isso precisávamos criar um sistema sólido e forte para acolhê-los e recepcioná-los com bastante responsabilidade”.

 

Tutor – “Para o novo programa, o requisito do nível N4 pode parecer um obstáculo muito alto mas fará uma enorme diferença tanto no trabalho quanto em seu círculo social. Com essa capacidade de comunicação as oportunidades no Japão serão bem maiores e muitas portas se abrirão”, conta Shimoji, destacando que “sem esse conhecimento razoável” da língua japonesa, nenhum jovem terá uma vida tranquila no Japão. Sobre esse requisito, o parlamentar disse que “quem estudar previamente no Brasil para obter o nivel 4 terá muito mais oportunidades de viver bem no Japão”.

“Na nossa concepção, não queremos que a pessoa vá do modo mais fácil para depois se ralar no Japão. Queremos que ela se esforce para ter boas oportunidades no Japão”, afirmou Shimoji, que considera um ponto “muito relevante” neste novo sistema o assistnte de recepção de yonseis, chamados também de tutores. Eles terão a missão de conversar com os yonseis sobre os problemas e dificuldades enfrentadas no dia a dia. E, detalhe: sem reumeração. Shimoji deixa bastante claro a diferença para os empreteiros, que “uma boa parte ganha comissão pelo aliciamento”.

“Até então, as empreteiras  somente apresentavam a vaga e não não tinham nenhum envolvimento com o trabalhador. No sistema de assistente de recepação esse acompanhamento é contínuo e sem remuneração. Se por ventura essas empresas quiserem entrar para agenciar os yonseis, terão que trabalhar sem remuneração e fazer o acompanhamento dutrante sua estadia no Japão”, disse Shimoji, acrescentando que há punicão prevista em caso de desobediência. Segundo ele, o Ministério da Justiça do Japão irá disponbilizar, em seu site, uma lista com nomes de tutores, que podem ser pessoas jurídicas ou físicas com visto permamente e devem ser idôneas.

 

Carinho – “Tivemos essa preocupação de oferecer suporte e assistência não só fisicamente como também psicológica e mentalmente porque temos preocupação de fomar yonseis com carinho. Nosso objetivo não é somente propiciar trabalho mas, fazer com que as pessoas possam gostar do Japão”, disse Mikio Shimoji, que pediu ainda um voto de confiança.

“Peço que possamos iniciar desta forma e nos permitam a ficar atentos as vozes que virão desta comunidade nipo-brasileira para que possamos avaliar de forma consistente e tentar aperfeiçoar este sistema. Para mim, o mais importante agora é iniciar.  O conteúdo do programa, não é regime estático, é dinâmico, portanto, pode mudar”, disse.

(Aldo Shiguti)

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