48ª edição do Prêmio Kiyoshi Yamamoto destaca contribuição de Satoshi Ito e Hisashi Amagai

(Aldo Shiguti)
(Aldo Shiguti)

O Salão Nobre do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) recebeu, no último dia 9, um público diferente daquele que costuma frequentar a entidade. Um dos motivos pode-se atribuir ao evento realizado naquela noite, a cerimônia de outorga do 48º Prêrmio Kiyoshi Yamamoto. O outro motivo foram os homenageados, Satoshi Ito (in memorian), de Sumaré (SP), e Hisashi Amagai, de Pouso Alegre (MG).
Instituído em 1965 pela Associação Brasileira de Estudos Técnicos da Agricultura (Abeta) para homenagear as pessoas que, nas suas respectivas atividades agropecuárias, tenham contribuído de modo relavante para o desenvolvimento técnico e econômico da agricultura brasileira, o Prêmio Kiyoshi Yamamoto é considerado a láurea de maior longevidade no setor agrícola do Brasil.
Em 53 anos de história e 48 edições, foram homenageados 159 personalidades, a maioria constiuída por produtores rurais da comunidade nikkei. Como os dois agraciados deste ano, sendo que Satoshi Ito faleceu seis dias após a indicação do seu nome para o Prêmio Kiyoshi Yamamoto, no dia 28 de junho de 2018, aos 82 anos, pelo agravamento da arritmia cardíaca, insuficiência renal crônica e pneumonia, que contraiu há algumas semanas.

Masato Ninomiya durante sua fala na cerimônia de entrega do 48º Prêmio Kiyoshi Yamamoto (Jiro Mochizuki)
Masato Ninomiya durante sua fala na cerimônia de entrega do 48º Prêmio Kiyoshi Yamamoto (Jiro Mochizuki)

Estiveram presentes o presidente e vice da Comissão do Prêmio Kiyoshi Yamamoto, respectivamente, Kunio Nagai e Alfredo Tsunechiro; o vice-cônsul do Departamento de Economia do Consulado Geral do Japão em São Paulo, Naoki Nakano; a presidente do Bunkyo, Harumi Goya; Luiz Yamamoto (representante da família Kiyoshi Yamamoto); Masato Ninomiya (membro do Conselho Superior de Apoio e Orientação do Bunkyo); o vice-presidente do Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), Akira Kawai e o presidente da Fundação Kunito Miysaka, Roberto Nishio, além de familiares dos homenageados.

O presidente da Comissão do Prêmio, Kunio Nagai (Aldo Shiguti)
O presidente da Comissão do Prêmio, Kunio Nagai (Aldo Shiguti)

Inovação e pioneirismo – Abrindo a série de dicursos, Kunio Nagai destacou a atuação dos homenegados. “Conhecia o Satoshi Ito há mais de 15 anos. Era um homem que sempre buscou a inovação e a modernização, introduzindo novas tecnologias trazidas de outros países. Ele foi um pioneiro que se preocupava não só com a produção, no caso o ovo, mas também com o esterco”, disse Nagai, lembrando que Satoshi Ito importara uma máquina do Japão e fazia a fermentação do esterco automaticamente em 24 horas. “E isso ele usou durante muitos anos. Recentemente ele havia importado uma outra máquina de outro país, que ainda está sendo instalada e que vai modernizar ainda mais ao possibilitar a produção de um esterco já seco”, destacou.

Hisashi Amagai recebe placa das mãos de Masato Ninomiya (Jiro Mochizuki)
Hisashi Amagai recebe placa das mãos de Masato Ninomiya (Jiro Mochizuki)

Sobre Hisashi Amagai, disse que mantém amizade há mais de 5 anos e que há mais de 50 anos o homenageado começou a desenvolver pesquisas e introduziu variedades de Kuri – uma espécie de castanha portuguesa. “Trata-se de um produtor que está sempre buscando novidades para introduzir no país. Graças a ele, hoje, no natal, nas prateleiras dos supermercados a maior parte das castanhas encontradas é a nacional”, afirma Kunio Nagai.

Persistência – Já Harumi Goya disse que, “participar da outorga de mais um edição deste Prêmio e acompanhar a trajetória de Dr. Kiyoshi Yamamoto e dos homenageados é tomar contato com a minha raiz como imigrante”. “Ou seja, promover um ambiente alimentado pelo espírito construtivo e saudável movido pelo empreendedorismo em prol do bem-estar social e pelo intercâmbio entre países. Esta é a mensagem mais marcante na biografia de Kiyoshi Yamamoto, um dos fundadores e o primeiro presidente de nossa entidade. Uma mensagem que também está presente na trajetória dos dois homenageados da noite”, observou a presidente do Bunkyo, que falou um pouco sobre a trajetória de Kiyoshi Yamamoto.
Para ela, acompanhar a biografia dos dois homenageados da noite, “coincidentemente dois jovens imigrantes pós-guerra, é aprender com as lições de persistência e otimismo, orientando o espírito empreendedor de cada um deles”. “Prestamos nossas reverências à memória do sr. Satoshi Saito e saudamos seus familiares. Nosso reconhecimento à contribuição do homenageado à produção avícola. Parabenizamos também o sr. Hisashi Amagai e sua família pela incansável dedicação ao cultivo do kuri em nosso país, espécie japonesa da castanha portuguesa”, discursou Goya, que agradeceu também os patrocinadores e apoiadores que viabilizaram a homenagem.

Tese – Masato Ninomiya contou sobre sua “operação” para resgatar a pesquisa desenvolvida por Kiyoshi Yamamoto sobre o controle da broca do café – que na época estava causando um grande estrago nas fazendas de café – usando vespa de Uganda, inimiga natural da praga. A pesquisa acabou virando tema de sua tese de doutoramento na Universidade de Tóquio, em 1951 – mais de 20 anos depois.
“No ano passado, a Comissão do Prêmio Kiyoshi Yamamoto tentou localizar a tese mas não encontrou em lugar nenhum e por isso me incumbiu de procurar em todas as bibliotecas do Japão e também na Universidade de Tóquio”, conta Ninimoya, lembrando que não obteve sucesso na empreitada.
“Só conseguimos localizá-la na Biblioteca Nacional da Dieta, em Osaka, mas não foi autorizada sua cópia”, lembra Ninomiya, que teve que se valer de todo seu prestígio político e acadêmico para finalmente conseguir a tão almeda tese. “Trouxe uma cópia para a Comissão do Prêmio Kiyoshi Yamamoto e outra para o Instituto Biológico, que em 2017 completou 90 anos”, disse Ninomiya.

Hisashi Amagai (Jiro Mochizuki)
Hisashi Amagai (Jiro Mochizuki)

Homenageados – Natural da Província de Ibaraki, no Japão, Hisashi Amagai desembarcou em território brasileiro em 1957, então com 20 anos de idade. “Desde a minha infância, o meu sonho era conhecer um continente maior que o Japão”, lembra Amagai, que aqui chegando aprendeu suas primeiras lições sobre avicultura e horticultura com Sadao Kano.
Foi somente em meados da década de 60, já em Cambui, Pouso Alegre (MG), após constituir família, que despertou sua paixão pela agricultura, incialmente com o plantio de tomate e batata, entre outras culturas. “Entre acertos e erros, um dia me despertei para a cultura do Kuri, a castanha portuguesa, pois sou natural de Ibaraki e nessa província a cultura de kuri é bastante famosa”, conta, acrescentando que os primeiros plantios de kuri foram em Espírito do Santa Dourado (MG), em 1968.

“Foi a partir daí que comecei a plantar variedades de kuri que ainda não existiam no Brasil, principalmente aquelas adapatadas ao solo e clima da nossa região”, disse Hisashi Amagai.

Eiji Ito, um dos filhos de Satoshi Ito (Jiro Mochizuki)
Eiji Ito, um dos filhos de Satoshi Ito (Jiro Mochizuki)

Já Eiji Ito, filho do primeiro casamento de Satoshi Ito, lembrou que o pai “sempre sonhava grande”. “Tinha muitas ideias, muita energia, muitos projetos para serem realizados. Realmente gostava do que fazia, trabalhava sem medir esforços e nos ensinou que é preciso determinação”, afirmou, acrescentando que “acompanhando sua trajetória de vida, posso afirmar com convicção que ele foi um dos imigrantes japoneses que se dedicou intensivamente na avicultura brasileira”.
“Hoje fazemos parte dos maiores produtores de ovos de São Paulo, destacando ultimamente nas inovações de automatização, processo de fermentação e secagem de esterco”, disse, explicando que, “nós, filhos deste grande empresário, assumimos o compromisso de dar continuidade pela busca do melhor para nossa empresa e para o avanço da avicultura brasileira”.

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